Negacionistas, Cientistas e Pseudocientistas

Por Paulo César Simões-Lopes do Departamento de Ecologia e Zoologia da UFSC

O Negacionismo tem muitas faces, e a Ciência?…

Sempre existiram negacionistas. Tapar o sol com a peneira não é coisa nova. Após a epopeia de Fernão de Magalhães, com a primeira volta ao mundo em 1522, continuaram a existir “terraplanistas”, mesmo nos dias de hoje.

Negacionista é quem nega a realidade verificável, óbvia, imediata. O faz, talvez, como arma política ou desconforto religioso sobre uma parcela crédula da sociedade. Há o negacionismo do holocausto judeu, do genocídio indígena brasileiro, da escravidão contemporânea, racismo, epidemias de sarampo, COVID-19, aquecimento global, queimadas, teoria da evolução, extinções, vacinas, importância do uso de máscaras numa pandemia…

Negacionistas vestem suas ideias com roupagem científica para dourar a pílula. São mentores da teoria da conspiração e mestres em usar informações fora de contexto, fabricando notícias falsas. E, sabemos, a mentira permanente confunde (Hitler era fã dessa ideia).

É importante aqui separar inocentes e crédulos daqueles que se vestem com as roupas da ciência, mas não a praticam. São esses que muitas vezes agem para confundir e submeter a sociedade. Valorizam incertezas e erros já corrigidos faz tempo, usam linguagem ambígua, tentam desacreditar personalidades como Darwin ou Galileu. Negacionistas são previsíveis e quase sempre truculentos, adoram difamação e pseudocientistas (ah, como adoram!). Acreditam que usando de ceticismo se parecerão com cientistas, mas este é seu “calcanhar de Aquiles”. Eles não entendem que ciência tem mais do que ceticismo. Ceticismo é a cabeça de um alfinete dentro de uma alfaiataria.

A teoria da evolução da vida não é um entrave religioso, não é um embaraço ou impedimento, pelo contrário, cada sábio deveria teorizar em sua área de atuação. Tatear às cegas, usando métodos que desconhecem, é um embuste. Negacionistas criticam a teoria da evolução atacando a ideia de Seleção Natural de Darwin e advertindo que ela não pode explicar tudo. Claro que não, faz tempo que a fila andou e eles ainda estão nisso. A Ciência anda, se modifica, aprende com seus erros, refuta, não é dogmática. Leiam Karl Popper e suas “Conjecturas e Refutações”1 para entender como os Cientistas Descobriram Que

Os negacionistas se perdem ao criticar a Ciência por caminhos que pensam ser científicos. Pensam que a “teoria do design inteligente” seja Ciência (aliás, leiam o maravilhoso artigo do colega Augusto S. P. Ramos nesse blog2). Pensam que a teoria da evolução seja um dogma. E, pasmem, fazem listas de cientistas que permanecem negando a evolução. (Aqui cabe um parêntese: se o assunto for câncer você procuraria um médico oncologista, se for o cosmos você procuraria um astrônomo e se for evolução não procuraria nenhum dos dois. Caberia buscar um paleontólogo, biólogo ou antropólogo). Pois bem, a tal lista contém só quatro dezenas de cientistas nessas especialidades, ou seja, a enésima parte da cabeça de um alfinete numa multinacional de alta costura. Mais do que isso, apenas seis são paleontólogos… Ora, não faz sentido que se evoque o “princípio da autoridade” (aquele onde a opinião de um iluminado é incontestável), já que esse princípio nem está mais em voga na ciência.

Negacionistas culpam a imprecisão das datações do carbono 14, mas ignoram − ou tentam ignorar − métodos complementares como das sequências de camadas geológicas, do potássio-argônio, dos isótopos radioativos que reconstroem ambientes do passado. Somam-se evidências independentes como aquelas da anatomia comparada que são maravilhosamente precisas (de ossos a finas redes nervosas). O registro fóssil na evolução dos cavalos, elefantes e baleias é primoroso e sem quaisquer lacunas. O mesmo se pode dizer da primeira asa de um dinossauro-ave. Mais do que isso, pode ser verificado no desenvolvimento dos fetos pela embriologia e desenvolvimento. A distribuição das espécies de hoje permite compreender como se formaram pelo isolamento progressivo imposto pelas cordilheiras, desertos, rios ou braços de mar. Comparações do DNA nos mostram o parentesco das focas com ursos ou das baleias com hipopótamos ou dos macacos com musaranhos arborícolas. Sim, ao conhecermos nossos parentes modernos podemos encontrar nossos ancestrais. Até o RNA dos vírus permite rastrear a origem das doenças. Saber, por exemplo, que a gripe espanhola não surgiu na Espanha.

Pilhas de evidências independentes se acumulam a cada nova descoberta e salto tecnológico. Hoje sabemos que as primeiras penas surgiram antes das aves, graças à microscopia eletrônica e mesmo assim os negacionistas atêm-se a ler, superficialmente, apenas os resumos dos trabalhos científicos e a oferecer suas críticas rasas e ineptas.

Sim, a negação da ciência tem muitas faces… a mais nefasta é o autoritarismo (de mão dadas à desinformação) …

 

Referências citadas nesse texto

  1. Karl Popper. 2018. Conjecturas e Refutações.
  2. Design inteligente. Inteligente?

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