Nosso coração será o mesmo após a COVID-19?

Por Daniel Fernandes, Departamento de Farmacologia UFSC

A atual pandemia de COVID-19 tem sido um dos maiores desafios da nossa sociedade. E agora, passados alguns anos de seu início estamos percebendo que independentemente da gravidade do quadro inicial de COVID-19 muitas pessoas apresentam acometimentos depois da fase aguda. Esta tem sido uma grande preocupação, já que muitas pessoas depois do quadro de COVID-19 têm muita dificuldade de retornar as suas atividades usuais. Esta condição tem sido chamada de “síndrome pós-COVID” ou “COVID longa”.

Em um estudo publicado recentemente Cientistas Descobriram Que após a recuperação da fase aguda da doença, há um aumento no risco de desenvolvimento de uma série de problemas cardiovasculares como arritmias, infarto do miocárdio e insuficiência cardíaca. E o que é mais preocupante, os riscos aumentados são evidentes mesmo entre aquelas pessoas que não foram hospitalizadas com COVID-19 durante o período agudo da doença. 

No estudo publicado na Nature Medicine os pesquisadores estimaram os riscos do desenvolvimento de doenças cardiovasculares por até 12 meses após a COVID-19. Para isso, eles usaram dados de registros médicos eletrônicos de um extenso banco de dados de uma instituição de saúde nos Estados Unidos (Department of Veterans Affairs National Healthcare). Foram comparados mais de 150.000 pacientes que sobreviveram após contrair COVID-19 com dois grupos de pessoas não infectadas, um grupo de mais de cinco milhões de pessoas que usaram o mesmo sistema médico durante a pandemia e que não tinham evidência de infecção pelo vírus SARS-CoV-2 e um grupo de tamanho semelhante que usaram o sistema em 2017, antes da circulação do SARS-CoV-2.

As pessoas que se recuperaram da COVID-19 apresentaram aumento de problemas cardiovasculares ao longo do ano após a infecção. Por exemplo, a cada 1.000 pessoas estudadas, havia cerca de quatro pessoas a mais no grupo COVID-19 que sofreu acidente vascular cerebral. Dito de outra forma, eles eram 52% mais propensos a ter um acidente vascular cerebral do que o grupo controle. Já o risco de insuficiência cardíaca aumentou 72%, ou havia mais 12 pessoas no grupo COVID-19 por 1.000 estudadas.

Gráfico comparativo entre a relação de riscos de doenças cardiovasculares entre não hospitalizados, hospitalizados e de terapia intensiva.

A hospitalização (em laranja na imagem ao lado) aumentou a probabilidade de complicações cardiovasculares futuras, mas mesmo as pessoas que não foram hospitalizadas (em cor verde) apresentavam um risco maior de sofrer destas complicações.

É claro que estudos observacionais como este sempre tem suas limitações. Por exemplo, as pessoas do grupo controle não foram testadas para COVID-19, então é possível que algumas delas realmente tiveram infecções leves. Além disso, a amostra é formada predominantemente por homens brancos, e, portanto, os resultados podem não ser extrapolados para todas as populações.

Os riscos relatados no estudo podem parecer pequenos, mas dado o grande número de pessoas com COVID-19 globalmente, esses números provavelmente se traduzirão em milhões de pessoas com doenças cardíacas pelo mundo.

Além disso, como a severidade do quadro de COVID-19 aumenta o risco de complicações cardiovasculares muito mais do que a doença leve, é importante que aqueles que não são vacinados recebam a vacina imediatamente. Por fim, estes novos dados reforçam que a COVID-19 não é apenas uma gripezinha!

Para saber mais:

  1. Long-term cardiovascular outcomes of COVID-19

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