Desvendando os mistérios dos cabelos brancos: a intrigante jornada das células-tronco melanocíticas

Desvendando os mistérios dos cabelos brancos: a intrigante jornada das células-tronco melanocíticas

Por Marco Augusto Stimamiglio – Instituto Carlos Chagas, Fiocruz Curitiba – Paraná 

Um estudo recente, realizado na Universidade de Nova York, revelou descobertas notáveis sobre as células-tronco melanocíticas (McSC), que dão origem às células responsáveis pela pigmentação da pele e dos cabelos. Ao contrário do modelo clássico, no qual uma célula-tronco origina uma célula madura sem possibilidade de voltar atrás, cientistas descobriram que as McSC podem oscilar entre os estados não especializado e especializado, dependendo dos sinais do microambiente em que estão inseridas (considerando as diferentes partes do tecido capilar, como o bulbo e o germe do cabelo). O que torna essa descoberta ainda mais fascinante é o fato de que, à medida que o folículo piloso envelhece, um maior número de McSC fica preso em um estado não especializado, perdendo a capacidade de amadurecer e produzir melanina.

Publicado na revista Nature em 19 de abril de 2023, este estudo desafia não apenas a visão tradicional de como as células-tronco se especializam, mas também oferece pistas sobre o motivo pelo qual o cabelo fica grisalho com o envelhecimento.

Inicialmente, os cientistas esperavam que as McSC seguissem o modelo clássico das células-tronco, no qual algumas permanecem não especializadas para reabastecer o reservatório de células-tronco, enquanto outras se especializam em células progenitoras que eventualmente se transformam em células maduras produtoras de melanina.

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Uma assinatura microscópica das cidades: o que as abelhas nos revelam sobre os microrganismos urbanos

Uma assinatura microscópica das cidades: o que as abelhas nos revelam sobre os microrganismos urbanos

Por Fabienne Ferreira – Dpto. de Ciências Morfológicas – Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), mais de metade da população mundial vive atualmente em áreas urbanas, e estima-se que essa proporção aumente para 70% até 2050. Nas cidades, temos uma mistura de muitos seres vivos, como pessoas, animais não humanos e plantas, cada um com suas próprias comunidades de microrganismos. A soma de todas essas comunidades microscópicas (invisíveis aos nossos olhos nus) é chamada microbioma. Essas diferentes formas de vida interagem o tempo todo, tanto entre si quanto com os prédios e ruas que criamos. 

Uma crescente quantidade de evidências científicas nos mostra que a saúde e bem-estar dos seres vivos dependem dessas interações.

Na verdade, o desenvolvimento e a saúde dos seres humanos estão relacionados a uma combinação de características individuais e características dos microrganismos que habitam nosso corpo.

Além disso, foi descoberto que o momento de floração das plantas depende do conjunto de microrganismos no solo, e que compostos metabólicos úteis em plantas medicinais são possivelmente sintetizados em conjunto com suas bactérias parceiras. 

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Músculos e Miocinas: um salto para uma vida saudável

Músculos e Miocinas: um salto para uma vida saudável

Por Heiliane de Brito Fontana – Dpto. de Ciências Morfológicas – Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

Toda forma de atividade física envolve a contração de músculos estriados esqueléticos. Lições aprendidas com a exposição prolongada à microgravidade ou ao desuso nos mostram o quão indispensável é o estímulo mecânico dos músculos para a nossa saúde.

A capacidade dos músculos esqueléticos de se encurtar e produzir força durante a contração advém do deslizamento de miofilamentos contidos nas fibras musculares, as células contráteis do músculo. Esses miofilamentos se organizam como elos de uma corrente no músculo através de unidades funcionais microscópicas chamadas de sarcômeros (do grego Sarx, Sarkos, carne e Meros, parte).

É o alinhamento dos sarcômeros nos músculos que resulta nas estrias presentes na fibra muscular quando observada ao microscópio.

O nome “músculo estriado esquelético” reflete essa organização dos sarcômeros e o fato desses músculos se ancorarem no esqueleto. Os únicos órgãos em nosso corpo sob comando voluntário são os músculos, sendo capazes de gerar a força necessária ao movimento das nossas articulações.

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Testes genéticos podem levar à indicação de cirurgias mamárias desnecessárias

Por Bruno Costa Silva – Champalimaud Centre for the Unknown – Lisboa, Portugal 

A identificação de modificações genéticas associadas a cânceres tem, há mais de 100 anos, despertado esperança na possibilidade de identificar pacientes mais suscetíveis a desenvolver esta doença e tratá-los antes da progressão maligna dos tumores.  Essa história iniciou com as ideias do citologista Theodor Boveri, que previu a relação entre a instabilidade da composição do DNA de células com o aparecimento de tumores em 1911. Esse conceito foi confirmado nos anos 1960 pelos cientistas Peter Nowell e David Hungerford que associaram a anomalia genética, conhecida como “cromossomo Filadélfia”, com o desenvolvimento de leucemias e, posteriormente, aprofundado por Robert Weinberg, Michael Bishop e seus colegas nos anos 1970, que descobriram as primeiras mutações genéticas (conhecidas como oncogenes) ligadas à ocorrência de tumores.

Em meados dos anos 90, em um trabalho liderado pela cientista Mary-Claire King, envolvendo 329 participantes, descobriu-se modificações nos genes BRCA1 e BRCA2, associadas ao maior risco (~13% em mulheres sem a mutação vs. ~45-80% naquelas com a mutação) de desenvolvimento hereditário de tumores de mama.

Apesar da maioria dos casos de tumores de mama não possuir associação com mutações hereditárias, tem sido cada vez mais comum a tomada de decisões por procedimentos radicais, como a remoção profilática das mamas, em casos onde modificações em BRCA1 ou BRCA2 são identificadas.

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As angústias “não” inscritas no DNA de Beethoven

As angústias “não” inscritas no DNA de Beethoven

Por Giordano W. Calloni – Dpto. de Biologia Celular, UFSC

No ano de 1801, Ludwig van Beethoven (1770-1827) publicou a famosa Sonata quase uma fantasia, op. 27, n. 2, a qual rapidamente atingiu um status mítico. O leitor provavelmente a conhece sob o nome de “Sonata ao luar”, título atribuído pelo crítico Ludwig Rellstab (1799-1860), cerca de cinco anos após a morte de Beethoven. O crítico comparou a música a um luar espelhado sob as águas trêmulas do lago Lucerna. Tal comparação foi adotada como apelido para a obra. Esta música é composta por três partes (chamados movimentos), sendo que a primeira, via de regra, é a mais conhecida popularmente.

Compartilho o link dos três movimentos interpretados por um dos maiores pianistas do Brasil, Nelson Freire.

Segundo Jan Swafford, um dos grandes biógrafos de Beethoven, a sonata é dedicada a Julie Guicciardi. Nas palavras de Jan: “se este é o adeus de Beethoven a ela, é de partir o coração – mas acaba em fúria e resistência” (Beethoven, angústia e triunfo1, página 296). Swafford tem razão, o primeiro movimento é recheado de mistério e tragédia, já o terceiro, e último movimento, é de uma revolta avassaladora. 

Se existe uma música que possa encarnar toda a angústia, tormento e revolta de uma vida, com certeza ela é a Sonata quase uma fantasia. Beethoven viveu exatamente assim: atormentado física e psicologicamente, como atesta uma carta dedicada a seus irmãos e chamada de Testamento de Heiligenstadt, descoberta um dia após sua morte sobre sua mesa. E seu maior tormento sem dúvida foi sua progressiva surdez.

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A COVID-19 é transmitida por alimentos? Eis a questão…

Por Dra. Izabella Thaís Silva, Dpto. de Farmácia, UFSC

Desde o início da pandemia de COVID-19, a potencial transmissão de SARS-CoV-2 por meio de alimentos tem sido controversa. Várias pesquisas em diferentes países relataram que os consumidores recorreram à lavagem de frutas e vegetais usando água sanitária ou sabão com a intenção de prevenir infecções por SARS-CoV-2. Uma pesquisa do Oriente Médio demonstrou que 70% dos 1.074 participantes estavam preocupados que o vírus causador da COVID-19 pudesse ser transmitido por meio dos alimentos. Outra pesquisa nos EUA, realizada entre abril e agosto de 2020, revelou um aumento significativo na lavagem de produtos com água e sabão durante a pandemia em comparação ao período anterior ao início da pandemia. E no Brasil, isso não foi diferente. Os números revelaram o aumento do uso de detergentes e de água sanitária para lavagem de frutas e vegetais na tentativa de prevenir a infecção viral.

Embora o vírus SARS-CoV-2 seja considerado principalmente um patógeno respiratório, há ampla evidência de sua capacidade de causar infecções entéricas incluindo sintomas de doenças gastrointestinais e a eliminação prolongada do vírus nas fezes de pacientes com COVID-19. Além disso, os alimentos podem potencialmente ser contaminados com SARS-CoV-2 por meio das vias fecal (mãos não higienizadas) e/ou respiratória (gotículas de tosse/espirro). Em estudos de laboratório, foi demonstrado que carnes em geral (porco, carne bovina e salmão) contaminadas artificialmente com baixas concentrações de SARS-CoV-2 e, armazenadas sob condições de refrigeração ou de congelamento, foram positivas para o patógeno por pelo menos 9 e 20 dias, respectivamente. No entanto, sabe-se que o SARS-CoV-2 é altamente sensível ao tratamento térmico com uma importante redução de infecciosidade quando submetido a temperatura de 70°C e, por isso, espera-se que o manuseio seguro e o cozimento adequado dos produtos cárneos mitiguem possíveis riscos à saúde associados a vários patógenos transmitidos por alimentos.

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Por que algumas mulheres têm infecções urinárias recorrentes?

Por Fabienne Ferreira do Dpto de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia da UFSC.

Infecções urinárias (IU) são muito comuns em todo o mundo, afetando milhões de pessoas anualmente. Estas infecções são predominantemente causadas por bactérias que habitam o intestino, sendo a bactéria Escherichia coli (E. coli) a mais incidente. Por isso, as IU são mais frequentes em pessoas com vulva/vagina (designadas, neste artigo, por mulheres), uma vez que a entrada do trato urinário (uretra) está bem próxima anatomicamente da região de saída do intestino (ânus), facilitando a migração das bactérias de uma região para a outra. A IU pode ocorrer em qualquer parte do trato urinário, incluindo a uretra (causando uretrite), bexiga (cistite) e ureteres e rins (pielonefrite), conforme ilustrado na figura.

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