Por Michelle Tillmann Biz – Departamento de Ciências Morfológicas – Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)
Entre os tratamentos disponíveis para tratar uma inflamação dentária, destaca-se o tratamento de canal (ou Endodontia). Esse procedimento consiste em acessar o canal existente no interior do dente, remover o tecido presente (a polpa dentária) e realizar uma limpeza cuidadosa dessa região, visto que pode conter restos de tecido em decomposição e micro-organismos capazes de manter a infecção ativa.
O grande desafio, nesse processo, é eliminar completamente a infecção e os micro-organismos presentes. Essas bactérias formam biofilmes, que são colônias altamente resistentes e difíceis de remover com métodos tradicionais, como irrigação com soluções químicas, uso de medicamentos ou instrumentos manuais e rotatórios.
Recentemente, porém, cientistas começaram a unir a tecnologia dos microrrobôs à Endodontia, e descobriram que ela pode revolucionar o tratamento de canal, tornando-o mais preciso e eficaz.
Mas vamos deixar de floreios e ir aos fatos: o que são microrrobôs?
Microrrobôs são dispositivos minúsculos, do tamanho de partículas, capazes de se mover dentro do corpo humano. Eles podem ser controlados por campos magnéticos, o que permite deslocamento seguro e preciso, inclusive em regiões de difícil acesso, como o interior dos canais dentários.
Na Medicina, esses microrrobôs já são estudados para tratar infecções, realizar cirurgias minimamente invasivas e entregar medicamentos diretamente no local da doença.
Na Odontologia, e especialmente na Endodontia, o potencial de sua utilização é enorme: eles podem alcançar regiões do canal radicular onde os instrumentos convencionais não chegam, destruir biofilmes bacterianos por ação mecânica, térmica (hipertermia) ou química, e ainda coletar amostras para diagnóstico microbiológico direto do interior do dente. Existem três tipos de microrrobôs estudados para serem aplicados na Endodontia:
Microswarms (“enxames” de nanopartículas): formados por nanopartículas de óxido de ferro que se agrupam e se movem em conjunto sob ação magnética. Podem limpar as paredes do canal, liberar radicais livres que destroem bactérias e coletar material biológico para análise.
Helicoides tridimensionais (modelo helicoidal-3D): pequenos robôs em forma de hélice, também compostos por nanopartículas de ferro, que giram como parafusos dentro do canal. Conseguem alcançar o ápice da raiz, liberar antibióticos e ser rastreados por tomografia.
Nanorrobôs de sílica helicoidal: ainda menores, são capazes de penetrar profundamente nos túbulos dentinários, onde as bactérias costumam se esconder. Podem gerar calor localizado para eliminar micro-organismos ou transportar medicamentos.
A segurança biológica também é uma preocupação dos cientistas, principalmente em relação ao material utilizado para sua construção. Os materiais utilizados são comumente o óxido de ferro e sílica, que são conhecidos por sua biocompatibilidade e baixo risco tóxico. Ainda assim, são necessários mais estudos para garantir a segurança, a remoção completa e o controle preciso desses microrrobôs dentro do corpo humano.
Embora a tecnologia ainda esteja em fase experimental, os resultados iniciais são promissores: em um futuro próximo, os dentistas poderão usar robôs microscópicos para eliminar infecções dentárias com uma precisão nunca alcançada.
Além disso, espera-se o desenvolvimento de sistemas automatizados e rastreáveis por imagem, capazes de navegar, limpar, desinfetar e até regenerar tecidos dentro do canal radicular com mínima intervenção humana.
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