Podemos ganhar resiliência ao Alzheimer!?

Por Rita Zilhão – Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (ULisboa)

A doença de Alzheimer (AD) é a forma mais comum de demência, afetando 47 milhões de indivíduos em todo o mundo. Por esta razão, urge identificar fatores de risco e avançar na identificação de fatores e componentes que possam reduzir a incidência do AD. 

O diagnóstico final inclui a detecção de características neuropatológicas clássicas da AD, como as designadas placas de beta amiloide (Aβ) e a agregação desordenada da proteína Tau fosforilada (pTau) em determinadas zonas do cérebro. 

Recentemente verificou-se que alguns indivíduos mostram uma discrepância entre a cognição e a quantidade de alterações neuropatológicas, indicando que estas alterações em si podem não ser suficientes para explicar o declínio cognitivo. Por outras palavras, algumas pessoas apresentam alterações compatíveis com o Alzheimer, não tendo, no entanto, nenhum sintoma da doença … quase como se os seus cérebros fossem mais resistentes a esta patologia neurodegenerativa. A compreensão dos mecanismos moleculares e celulares subjacentes a este fenômeno que se designou de “resiliência”, ainda é mal compreendida. A fim de elucidar melhor como indivíduos resilientes podem permanecer cognitivamente intactos, e quem sabe no futuro descobrir novas vias terapêuticas, um grupo de cientistas na Holanda selecionou numa coleção cerebral do Banco de Cérebros*, um conjunto de:

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A rinite alérgica pode ser agravada pela presença de uma bactéria no nariz

Por Fabienne Ferreira – Departamento de Microbiologia – Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

Você é uma das pessoas que sofrem com rinite alérgica? Apresenta sintomas como espirros, coceira no nariz, nariz escorrendo e obstrução nasal (o famoso nariz entupido) ao entrar em contato com pólen, ácaros, poeira, pelos de animais, fungos (mofo), entre outros? Se este é o seu caso, você faz parte dos 10-30% dos adultos que, de acordo com uma pesquisa recente, sofrem, em diversos países do mundo, de rinite alérgica. 

Apesar de haver tratamento para esta condição clínica, ainda não há uma cura definitiva. Além disso, os mecanismos exatos pelos quais a rinite alérgica se estabelece não são completamente compreendidos. Neste texto, são apresentados novos dados da ciência sobre este assunto, que estão ajudando na pesquisa de novos tratamentos e até de uma possível cura.

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Você ouve sua voz interior? Explorando as consequências comportamentais da anendofasia 

Por Vanessa Shigunov (Psicóloga) e Patrícia Shigunov (FIOCRUZ)

A anendofasia é um fenômeno psicológico caracterizado pela ausência de um monólogo interno ou fala interior, que é a capacidade de “ouvir” pensamentos verbais na mente. Enquanto muitas pessoas experimentam uma forma contínua de diálogo interno que ajuda na organização de ideias, na tomada de decisões e na reflexão sobre experiências, indivíduos com anendofasia não possuem essa narrativa interna verbalizada. Em vez disso, seus processos de pensamento podem ocorrer de maneira não verbal, utilizando imagens visuais, sensações ou outras formas de cognição. Cientistas descobriram que a variabilidade na fala interna das pessoas possui consequências comportamentais e em tarefas cognitivas.

Pesquisadores da Dinamarca e dos Estados Unidos estudaram as diferenças entre pessoas com graus distintos de fala interna em relação aos processos da memória operacional verbal. Eles acreditavam que lembrar de palavras seria mais difícil para as pessoas sem voz interna, pois elas não utilizam o exercício de repetir para si mesmas o que precisam memorizar. Por outro lado, aquelas que possuem voz interior mais ativa reforçariam a informação que precisam reter por meio desse diálogo interno. Essa hipótese foi confirmada pela pesquisa, demonstrando que a presença de uma voz interna facilita a memorização de palavras.

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A microbiota do pai importa para a saúde do bebê?

Por Daniel Fernandes e Gabrielle Delfrate – Departamento de Farmacologia – Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

Alguns tipos de bactérias podem induzir graves infecções. Mas você já deve ter ouvido falar que existem vários microrganismos coabitando o nosso corpo. Hoje sabemos que essa microbiota têm um papel fundamental na nossa saúde, inclusive prevenindo infecções. É como se as bactérias “boas” competissem com as “más” por espaço e alimento. Logo, desequilíbrios na microbiota intestinal, causado por exemplo pelo uso indevido de antibióticos, têm sido associados com o desenvolvimento de várias doenças. Já sabemos, por exemplo, que o uso de antibióticos pode afetar a saúde das mães e dos bebês. Mas você sabia que os pais também têm um papel importante nisso? 

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Extra! Extra! Uma nova organela é descoberta! Agora em Algas!

Giordano Wosgrau Calloni – Departamento de Biologia Celular, Embriologia e Genética – Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

Os leitores fiéis do CDQ talvez irão lembrar que há cerca de um ano atrás (15/06/2023) minha postagem foi a respeito de algo que com muita raridade acontece: a identificação de uma nova organela celular . A organela, chamada de corpos PXO havia sido descoberta em células do intestino de moscas da fruta e atuava como um sensor e reservatório de fosfato. O artigo científico havia sido publicado na prestigiosa Revista Nature.

Braarudosphaera bigelowii com seta preta indicando o nitroplasto. Tyler Coale, UCSC.

Pois pasmem, menos de um ano depois, mais precisamente em 11/04/2024, Cientistas Descobriram Que… as algas também contam com uma organela nunca identificada até então, ou pelo menos não identificada como uma organela! A descoberta foi feita na alga marinha Braarudosphaera bigelowii e a organela está sendo chamada de Nitroplasto sendo responsável pela fixação do nitrogênio nestes organismos.

Epa, mas percebam pela frase anterior que parece haver uma complicação nessa estória! Essa organela era algo que já se sabia que estava ali (diferente dos corpos PXO que nunca haviam sido observados até então), mas que não era considerado uma organela! E como pode isso? 

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Uma distante origem da arte de curar: quem criou a Medicina?

Por Paulo César Simões-Lopes – Departamento de Ecologia e Zoologia – Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

De fato, Hipócrates (460-377 a.C.) foi um cara e tanto. Nascido numa linhagem de médicos, ele deu um salto quântico em sua época e seus preceitos acabaram contidos no juramento dos médicos modernos. E ele anteviu os desvios que poderiam acontecer: “Nunca me servirei da profissão para corromper os costumes ou favorecer o crime”. Fundamentalmente, a peste de Atenas o permitiu conceber, entre tantos conceitos terapêuticos, a distinção entre sintomas e doenças.

Busto de Imhotep – Museu de Imhotep, Egito

Numa terra de tantos deuses e mitologias coube a Asclépio (Esculápio) a aura do que seria a origem da medicina. Ele é citado em um dos escritos mais antigos do mundo ocidental (Ilíada) e aparece ora como homem ora como deus. Mas o certo é que outros médicos já haviam feito diagnósticos e tratamentos antes e, dentre eles, está Imhotep (2.655 – 2.600 a.C.), que deixou em papiros no antigo Egito seus registros extraordinários de casos médicos e tratamentos.

Ok, todos sabemos que curandeiros e xamãs receitaram chás, óleos e emplastos com ervas, apressaram cicatrizações, aliviaram dores e febre e tudo isso está repleto de acertos e erros. Assim é com tudo o que criamos… ou copiamos?

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Será que hormônios podem melhorar a memória?

Virgínia Meneghini Lazzari – Departamento de Biologia Celular, Embriologia e Genética – UFSC

O comportamento humano é algo muito interessante, concordam? Cientistas do mundo inteiro buscam explicar as mais diversas possibilidades comportamentais que podemos assumir ao longo da vida e os porquês das variações destes comportamentos entre indivíduos. Um tema muito estudado nesta área da ciência é a consolidação da memória e as possíveis diferenças apresentadas entre pessoas do sexo feminino e do sexo masculino. Cabe ressaltar aqui que variações intersexuais são possíveis e que os estudos sobre o assunto focam no sexo biológico relacionado aos cromossomos sexuais e aos níveis hormonais circulantes nas pessoas.

Sobre as diferenças entre os sexos, evidências de estudos sugerem que, nas funções de memória episódica (aquela memória que nos recorda os fatos e experiências vividas, localizadas no espaço e no tempo), as mulheres tendem a ser melhores que os homens. Provavelmente essa informação pegou poucos leitores de surpresa, certo? É bastante comum, quando pensamos em datas e experiências vividas, que as mulheres apresentem uma lembrança mais detalhista, em geral. Veja bem, caro leitor do sexo masculino, não está liberado esquecer datas importantes como casamento, namoro, etc. baseado neste texto, ok? Brincadeiras à parte, essa superioridade feminina varia com o tipo de tarefa e o material de estímulo utilizado.

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