Os vírus que combatem o câncer: uma nova esperança na terapia

Os vírus que combatem o câncer: uma nova esperança na terapia

Izabella Thaís da Silva – Departamento de Ciências Farmacêuticas – Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

Você já ouviu falar que os vírus podem ser nossos aliados na luta contra o câncer? Acredite ou não, a pesquisa médica está explorando essa ideia. 

Vamos explicar de uma maneira mais simples.

O efeito antitumoral da infecção viral natural em pacientes com câncer não é nenhuma novidade. Recentemente, por exemplo, foi relatado que um homem de 61 anos, na Inglaterra, com Linfoma de Hodgkin em estágio III (um câncer no sistema linfático) teve remissão da doença após ser infectado pelo novo coronavírus (veja o estudo completo AQUI). 

O mesmo efeito já havia sido constatado pela medicina há mais de um século, porém, somente nos últimos anos, os avanços científicos permitiram a elucidação de como os vírus oncolíticos (ou seja, os vírus capazes de matar as células tumorais) funcionam e interagem com o sistema imunológico. Sabe-se que os vírus naturalmente possuem uma capacidade inata de eliminar células cancerígenas, porém para otimizar o seu potencial oncolítico, são necessárias alterações para melhorar a sua seletividade pelas células cancerígenas e diminuir a sua toxicidade. 

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Aliados invisíveis: como as bactérias podem ajudar na luta contra o câncer

Por Fabienne Ferreira – Departamento de Microbiologia – Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

Você sabia que dentro do nosso corpo existem pequenos seres vivos, os microrganismos, que formam uma comunidade enorme e cheia de interações? Cientistas têm observado, que algumas bactérias presentes no nosso corpo podem interagir com células cancerígenas. A partir desta observação, eles começaram a analisar estas bactérias mais de perto, pensando na possibilidade de poder utilizá-las como parte importante no tratamento de diferentes tipos de câncer. 

Os cientistas começaram a estudar uma bactéria chamada Pseudomonas aeruginosa, e descobriram que ela pode produzir uma substância chamada azurina, que consegue adentrar as células cancerígenas humanas e, surpreendentemente, fazer com que estas se “desliguem” e morram, em um mecanismo conhecido na biologia como apoptose. Mas os estudos não pararam por aí. Os cientistas queriam entender mais sobre a interação entre essa bactéria e o nosso corpo, na indução da morte dos tumores. Por isso, através de novos experimentos, cientistas descobriram que quando as células cancerígenas estão perto da bactéria, as células tumorais começam a liberar uma substância chamada aldolase A. Isso faz com que a bactéria libere ainda mais azurina, e grude mais nas células do câncer.

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Desvendando o elo: irisina, exercício e o desafio contra a demência

Por Heiliane de Brito Fontana – Departamento de Ciências Morfológicas – Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

À medida que envelhecemos, nosso cérebro também passa por esse processo, e isso pode resultar em um declínio cognitivo. A demência é um desafio global para a saúde no século XXI, principalmente entre pessoas com mais de 65 anos. Seu impacto tem sido impulsionado nas últimas décadas, afinal – ainda bem – a ciência tem nos ajudado a reduzir mortes prematuras por doenças tratáveis, aumentando a longevidade.

Embora o envelhecimento do nosso cérebro seja um fato, a Comissão Lancet sobre Prevenção, Intervenção e Cuidados com a Demência alerta: “a demência de forma alguma é uma consequência inevitável de atingir a idade de aposentadoria, ou mesmo de entrar na nona década de vida”. Existem fatores que podem ajudar a modificar o declínio cognitivo, e a atividade física é um dos mais promissores e mais suportados por evidências. 

Estudos prospectivos, acompanhando milhares de indivíduos sem demência por longos períodos, revelaram que a atividade física possui um efeito protetor significativo contra o declínio cognitivo. Especificamente, exercícios de alta intensidade mostraram a maior eficácia na preservação da cognição. Além disso, o exercício reduz substancialmente o risco de desenvolver a doença de Alzheimer, chegando a uma diminuição de quase 50%. 

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Regeneração de lesão de medula nervosa: um passo promissor!

Por Michelle Tillmann Biz – Departamento de Ciências Morfológicas – Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

As células-tronco são como sementes capazes de gerar novas células para os tecidos que habitam. A maioria dos tecidos do corpo possui estas células, o que garante a recuperação após uma lesão ou mesmo a reposição de células antigas por novas. 

Mas isso não ocorre no sistema nervoso. No tecido nervoso, os neurônios são células que desde o momento do seu surgimento serão as responsáveis por desempenhar sua função sem haver uma reposição por nova célula frente a uma lesão. Por isso, até bem pouco tempo era difícil falar em regeneração nervosa frente a situações críticas como lesão medular (em acidentes envolvendo a medula espinal) ou no cérebro (como no caso de falta de oxigenação). 

Digo até bem pouco tempo, pois Cientistas Descobriram Que células-tronco da polpa de dentes humanos são capazes de provocar regeneração de lesões nervosas. Por terem se originado a partir da crista neural, estas células apresentam capacidade de formar neurônios e ainda produzem uma variedade de fatores neurotróficos que favorecem um microambiente regenerativo. Duas publicações anteriores do CDQ apresentaram resultados de pesquisas científicas promissoras neste campo da regeneração nervosa usando estas células-tronco dentárias. (Leia AQUI e AQUI).

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Repensando o Transplante de Medula óssea: será o fim da quimioterapia?

Por Patrícia Shigunov – Instituto Carlos Chagas – FIOCRUZ

O transplante de medula óssea, também conhecido como transplante de células-tronco hematopoiéticas, é um procedimento médico complexo utilizado para tratar diversas doenças do sangue, como leucemias, linfomas e algumas condições genéticas. As células-tronco hematopoiéticas desempenham um papel vital na saúde sanguínea, sendo responsáveis pela produção de todas as células sanguíneas ao longo da vida de uma pessoa. Antes de realizar o transplante de medula óssea, é essencial preparar o ambiente da medula óssea do receptor para receber as novas células-tronco saudáveis.

A quimioterapia e/ou radioterapia são administradas para eliminar as células-tronco hematopoiéticas doentes do receptor e eliminar o sistema imunológico, minimizando o risco de rejeição das células transplantadas. Apesar de sua eficácia, o transplante está associado a diversos efeitos colaterais e complicações, cuja gravidade varia conforme o estado do paciente, o tipo de transplante e as fontes de células-tronco utilizadas. Embora esse procedimento seja fundamental, acaba impactando as células saudáveis.

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O que a jararaca tem a ver com a hipertensão?

Por Daniel Fernandes e Jamil Assreuy – Departamento de Farmacologia – Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

A familiaridade com a hipertensão, popularmente denominada pressão alta, é quase inevitável. Esta condição crônica afeta muitas pessoas e sua gravidade reside no fato de que representa um dos principais fatores de risco para o desenvolvimento de condições sérias, como acidente vascular cerebral, infarto, aneurisma arterial, insuficiência renal e cardíaca.

Jararaca. Fonte: Instituto Butantan

Felizmente, hoje dispomos de diversas opções de tratamento para a hipertensão. Uma abordagem notável teve início com as pesquisas do cientista brasileiro Sérgio Ferreira, que, em colaboração com cientistas de diversas partes do mundo, desvendou os componentes isolados a partir do veneno de jararaca (Bothrops jararaca). Esses estudos revelaram que os componentes do veneno da jararaca eram capazes de reduzir a formação de um peptídeo (pequena cadeia de aminoácidos) chamado angiotensina II.

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Bactérias ancestrais vítimas de um vírus moderno?

Bactérias ancestrais vítimas de um vírus moderno?

Por Giordano W. Calloni – Departamento de Biologia Celular – Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

Os leitores fiéis do CDQ e já familiarizados com meus textos, devem ter percebido uma certa obsessão de minha parte por uma organela onipresente em nossas células: a mitocôndria. Ver também texto de 2016.

Mitocôndria

Para que os leitores possam acompanhar o presente texto, irei relembrar rapidamente a Teoria Endossimbiótica. Essa teoria afirma que as mitocôndrias atuais se originaram a partir de bactérias ancestrais. O mecanismo exato pelo qual isso ocorreu ainda é fonte de muitas hipóteses e pesquisas, mas estima-se que ocorreu entre 1,6 e 1,8 bilhão de anos atrás. Uma dessas hipóteses propõe que as bactérias foram fagocitadas (ou seja, ingeridas) por outras células maiores. De alguma forma, essas bactérias escaparam de ser digeridas por essa célula ancestral e permaneceram em seu interior. Assim, se estabeleceu uma simbiose entre os dois seres, ou seja, a bactéria passou a fornecer energia para a célula que lhe hospedou, e em troca ganhou proteção e nutrientes da mesma. Milhares de anos de evolução transformaram essa bactéria nas atuais mitocôndrias, que são as grandes usinas de energia das células eucariontes, sob a forma de ATP. Vale mencionar que esta teoria também explicaria a origem dos cloroplastos de plantas e algumas algas.

A ideia de que algumas organelas em eucariotos evoluíram a partir de bactérias endossimbióticas remonta ao início do século XX. Em 1905, Konstantin Mereschkowsky sugeriu que os cloroplastos derivaram de “algas verde-azuladas” (hoje sabemos que são na verdade cianobactérias). Em 1927, Wallin propôs que as mitocôndrias derivaram de bactérias roxas (alfaproteobactérias). Entretanto, esta hipótese que parecia originada de um livro de ficção científica, permaneceu extremamente controversa, por razões óbvias: parecia ser louca demais para ser verdade! E o principal: faltavam evidências para poder comprová-la. 

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