Por Rita Zilhão, Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa

Os relatos históricos que associam o câncer a micróbios são milenares. Contudo, unicamente a partir do último século e meio ganharam relevância na discussão científica. Em 1868, William Busch relatou regressões espontâneas de tumores em doentes que tinham contraído infeções com a bactéria Streptococcus pyogenes. Esta observação revelava o papel das bactérias na saúde e seria uma das primeiras demonstrações do que hoje se conhece como imunoterapia do câncer. Alguns anos depois, em 1911, a teoria viral do câncer surge com a descoberta de que o vírus sarcoma de Rous transformava tecido benigno em tumores malignos nas galinhas. Contudo, erros experimentais e conceptuais levaram a que o papel dos microrganismos na carcinogénese e na terapia do câncer fosse escasso. De facto, a procura durante décadas para identificar vírus na origem de cada câncer humano acabou por falhar, e muitos cânceres ficaram vinculados a mutações. Com o desenvolvimento tecnológico a nível de técnicas de sequenciação (sequenciamento, em português brasileiro) de genomas e bioinformática, surge a evidência de que nos diferentes indivíduos há uma considerável variedade de espécies e subespécies de bactérias que coabitam um determinado tecido ou órgão (variabilidade polimórfica dos microbiomas), e que esta pode ter um impacto profundo nos fenótipos do câncer.
São poucos os microrganismos identificados como causadores diretos do câncer. Porém, são já vários os estudos em que os Cientistas descobriram que diferentes microbiomas, com características distintas relativamente à dinâmica e à diversidade de espécies microbianas, são cúmplices no desenvolvimento e progressão maligna, e na resposta à terapia. Mas como?
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