Regeneração de lesão de medula nervosa: um passo promissor!

Por Michelle Tillmann Biz – Departamento de Ciências Morfológicas – Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

As células-tronco são como sementes capazes de gerar novas células para os tecidos que habitam. A maioria dos tecidos do corpo possui estas células, o que garante a recuperação após uma lesão ou mesmo a reposição de células antigas por novas. 

Mas isso não ocorre no sistema nervoso. No tecido nervoso, os neurônios são células que desde o momento do seu surgimento serão as responsáveis por desempenhar sua função sem haver uma reposição por nova célula frente a uma lesão. Por isso, até bem pouco tempo era difícil falar em regeneração nervosa frente a situações críticas como lesão medular (em acidentes envolvendo a medula espinal) ou no cérebro (como no caso de falta de oxigenação). 

Digo até bem pouco tempo, pois Cientistas Descobriram Que células-tronco da polpa de dentes humanos são capazes de provocar regeneração de lesões nervosas. Por terem se originado a partir da crista neural, estas células apresentam capacidade de formar neurônios e ainda produzem uma variedade de fatores neurotróficos que favorecem um microambiente regenerativo. Duas publicações anteriores do CDQ apresentaram resultados de pesquisas científicas promissoras neste campo da regeneração nervosa usando estas células-tronco dentárias. (Leia AQUI e AQUI).

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O que a jararaca tem a ver com a hipertensão?

Por Daniel Fernandes e Jamil Assreuy – Departamento de Farmacologia – Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

A familiaridade com a hipertensão, popularmente denominada pressão alta, é quase inevitável. Esta condição crônica afeta muitas pessoas e sua gravidade reside no fato de que representa um dos principais fatores de risco para o desenvolvimento de condições sérias, como acidente vascular cerebral, infarto, aneurisma arterial, insuficiência renal e cardíaca.

Jararaca. Fonte: Instituto Butantan

Felizmente, hoje dispomos de diversas opções de tratamento para a hipertensão. Uma abordagem notável teve início com as pesquisas do cientista brasileiro Sérgio Ferreira, que, em colaboração com cientistas de diversas partes do mundo, desvendou os componentes isolados a partir do veneno de jararaca (Bothrops jararaca). Esses estudos revelaram que os componentes do veneno da jararaca eram capazes de reduzir a formação de um peptídeo (pequena cadeia de aminoácidos) chamado angiotensina II.

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Bactérias ancestrais vítimas de um vírus moderno?

Bactérias ancestrais vítimas de um vírus moderno?

Por Giordano W. Calloni – Departamento de Biologia Celular – Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

Os leitores fiéis do CDQ e já familiarizados com meus textos, devem ter percebido uma certa obsessão de minha parte por uma organela onipresente em nossas células: a mitocôndria. Ver também texto de 2016.

Mitocôndria

Para que os leitores possam acompanhar o presente texto, irei relembrar rapidamente a Teoria Endossimbiótica. Essa teoria afirma que as mitocôndrias atuais se originaram a partir de bactérias ancestrais. O mecanismo exato pelo qual isso ocorreu ainda é fonte de muitas hipóteses e pesquisas, mas estima-se que ocorreu entre 1,6 e 1,8 bilhão de anos atrás. Uma dessas hipóteses propõe que as bactérias foram fagocitadas (ou seja, ingeridas) por outras células maiores. De alguma forma, essas bactérias escaparam de ser digeridas por essa célula ancestral e permaneceram em seu interior. Assim, se estabeleceu uma simbiose entre os dois seres, ou seja, a bactéria passou a fornecer energia para a célula que lhe hospedou, e em troca ganhou proteção e nutrientes da mesma. Milhares de anos de evolução transformaram essa bactéria nas atuais mitocôndrias, que são as grandes usinas de energia das células eucariontes, sob a forma de ATP. Vale mencionar que esta teoria também explicaria a origem dos cloroplastos de plantas e algumas algas.

A ideia de que algumas organelas em eucariotos evoluíram a partir de bactérias endossimbióticas remonta ao início do século XX. Em 1905, Konstantin Mereschkowsky sugeriu que os cloroplastos derivaram de “algas verde-azuladas” (hoje sabemos que são na verdade cianobactérias). Em 1927, Wallin propôs que as mitocôndrias derivaram de bactérias roxas (alfaproteobactérias). Entretanto, esta hipótese que parecia originada de um livro de ficção científica, permaneceu extremamente controversa, por razões óbvias: parecia ser louca demais para ser verdade! E o principal: faltavam evidências para poder comprová-la. 

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Os microrganismos da pele e os maus odores do corpo

Os microrganismos da pele e os maus odores do corpo

Por Ricardo Mazzon – Departamento de Microbiologia – Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC)

Certamente você já deve ter notado que algumas regiões dos nossos corpos podem produzir maus odores após um dia quente, de muito trabalho, exercício físico ou outra situação que gere sudorese intensa. Também é notável que nem todas as pessoas apresentam os mesmos odores nem as mesmas intensidades destes odores nas situações descritas acima, afinal, possivelmente você conheça alguém que relate não utilizar desodorantes nas axilas e, nem por isso, fiquem malcheirosas imediatamente após a prática de exercício físico. Também se sabe que as secreções das glândulas sudoríparas e sebáceas presentes nos folículos pilosos (que são compostas principalmente por água, sais, proteínas, lipídeos e esteroides) são inodoras o que, portanto, não explica os maus odores. Estas diferenças individuais em relação a produção de odores corpóreos há muito tempo intrigavam os pesquisadores e diversas hipóteses para tentar explicar essa variabilidade já foram elaboradas e testadas ao longo dos anos.

Especialmente nos últimos 10 anos, a ciência tem se debruçado no estudo das microbiotas, ou seja, identificação e entendimento do comportamento dos microrganismos que normalmente habitam as regiões dos nossos corpos em situações de saúde e doença. Esses estudos demonstram que diversas partes dos nossos corpos são normalmente e constantemente colonizados por conjuntos de microrganismos que variam de uma região a outra do corpo, que podem variar de pessoa para pessoa e ao longo de nossas vidas em termos de diversidade e abundância relativa entre as espécies presentes. Além disso, as variações de hábitos de higiene e alimentares também podem interferir nessas diversidades. A pergunta que surgiu com o acúmulo de dados e informações sobre as microbiotas foi, naturalmente, qual seria o papel destes microrganismos na produção de maus odores, em especial aqueles surgidos nas axilas e nos pés. 

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Abaixo a corrupção tumoral!! A saga continua

Por Bruno Costa Silva – Champalimaud Centre for the Unknown – Lisboa, Portugal 

Neste texto mostramos uma nova droga que, ao atuar sobre células não tumorais, melhora a resposta de tumores a terapias.

Se estima que apenas em 2020 tenham havido 1.414.259 casos e 375.304 mortes causadas por câncer de próstata globalmente, um tipo tumoral que sozinho corresponde a 15% de todos os diagnósticos de câncer.

Apesar de avanços no desenvolvimento de novos medicamentos, uma proporção de 10-20% destes pacientes virão a apresentar tumores com resistência mesmo aos tratamentos mais modernos.

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Desvendando os mistérios dos cabelos brancos: a intrigante jornada das células-tronco melanocíticas

Desvendando os mistérios dos cabelos brancos: a intrigante jornada das células-tronco melanocíticas

Por Marco Augusto Stimamiglio – Instituto Carlos Chagas, Fiocruz Curitiba – Paraná 

Um estudo recente, realizado na Universidade de Nova York, revelou descobertas notáveis sobre as células-tronco melanocíticas (McSC), que dão origem às células responsáveis pela pigmentação da pele e dos cabelos. Ao contrário do modelo clássico, no qual uma célula-tronco origina uma célula madura sem possibilidade de voltar atrás, cientistas descobriram que as McSC podem oscilar entre os estados não especializado e especializado, dependendo dos sinais do microambiente em que estão inseridas (considerando as diferentes partes do tecido capilar, como o bulbo e o germe do cabelo). O que torna essa descoberta ainda mais fascinante é o fato de que, à medida que o folículo piloso envelhece, um maior número de McSC fica preso em um estado não especializado, perdendo a capacidade de amadurecer e produzir melanina.

Publicado na revista Nature em 19 de abril de 2023, este estudo desafia não apenas a visão tradicional de como as células-tronco se especializam, mas também oferece pistas sobre o motivo pelo qual o cabelo fica grisalho com o envelhecimento.

Inicialmente, os cientistas esperavam que as McSC seguissem o modelo clássico das células-tronco, no qual algumas permanecem não especializadas para reabastecer o reservatório de células-tronco, enquanto outras se especializam em células progenitoras que eventualmente se transformam em células maduras produtoras de melanina.

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