A higiene bucal deficiente contribui muito para o câncer de boca

Por Filipe Modolo – Dpto. de Patologia, UFSC

Lactobacilos, fonte: revista Superinteressante.

Os micro-organismos que habitam nosso corpo são muito importantes para nossa saúde. Os exemplos mais famosos de micro-organismos que trabalham a nosso favor são os lactobacilos, que vivem em nosso intestino e são muito importantes para a regulação do trânsito intestinal e, portanto, para nossa saúde geral.

Nossa boca também é muito rica em micro-organismos, com mais de 700 espécies, principalmente de bactérias, que têm papel essencial nas funções da boca. No entanto, essas bactérias, quando fora de controle, também podem causar diversas doenças como a cárie, a gengivite (doença em que há inflamação gengival), a periodontite (doença em que há inflamação gengival acompanhada de perda do osso que envolve os dentes) e, por fim, a perda dos dentes.

Recentemente, cientistas descobriram que… as bactérias da boca também podem contribuir muito para a formação do câncer de boca! Continuar lendo

Um programa na formação de metástases

Por Rita Zilhão, Faculdade de Ciências de Lisboa, Portugal

As metástases resultam da disseminação de células tumorais a partir de um tumor primário e à sua posterior colonização e crescimento noutro órgão ou tecido do organismo. A formação de metástases é responsável pela maioria das mortes relacionadas com o cancro (câncer, em português brasileiro). Os mecanismos moleculares subjacentes à formação de metástases têm sido alvo de intenso estudo desde há muito. As razões clínicas para essa dedicação são óbvias: quanto maior for esse conhecimento mais eficientes serão as estratégias e o desenvolvimento de drogas que visem o bloqueio ou redução do processo de metastização.

Um dos modelos biológicos que se pensa poder mediar a disseminação metastática é o do fenômeno conhecido como “transição epitélio-mesênquima” (EMT – epithelial-to-mesenchymal transition). Convém referir que, pela sua natureza e características, esse programa biológico está envolvido no desenvolvimento embrionário e na cicatrização de feridas (wound healing). Nas duas últimas décadas, verificou-se que, embora com algumas variantes, o EMT também está na origem da formação de metástases de cancros do pulmão, pâncreas, ovário etc.., ou seja, essencialmente carcinomas, que são cancros com origem em epitélios*. Mais uma vez o cancro se revela como um “fora-da-lei”, sequestrando os mecanismos normais da célula e manipulando-os para seu próprio uso fruto! Continuar lendo

Prêmio Nobel 2018: medicina, física e química

O CDQ… preparou um texto especial para nossos leitores. Reunimos três pesquisadores das áreas de Biologia/Biomedicina, Física e Química para explicar as grandes descobertas que renderam os prêmios Nobel de Medicina, Física e Química de 2018. Aproveitem! Continuar lendo

A impressão 3D de tecidos vivos anda a passos largos

Por Marco Augusto Stimamiglio – Instituto Carlos Chagas – Fiocruz/PR

Uma das tecnologias atuais mais promissoras para a fabricação de tecidos e órgãos artificiais, que pode ser capaz de revolucionar o diagnóstico e o tratamento de muitas condições médicas diferentes, é a chamada bioimpressão 3D. Em edição anterior do Cientistas Descobriram que… entendemos do que realmente se trata a impressão em 3 dimensões (3D). Neste texto, vamos tratar da bioimpressão, processo que usa de tecnologias computacionais avançadas para modelar materiais biológicos (como células, biomoléculas e biomateriais) para a fabricação de “peças” que imitam os tecidos. Essa nova abordagem da impressão 3D requer materiais biocompatíveis, isto é, materiais que não são tóxicos aos tecidos vivos e são capazes de atuar como suporte para as células impressas, permitindo que essas sejam cultivadas em biorreatores para se desenvolverem e se tornarem funcionalmente maduras. Continuar lendo

Fibras de nanotubo de carbono usadas na fabricação de tecidos que podem funcionar como baterias. Que tal carregar o celular na sua jaqueta?

Por Keli Fabiana Seidel – Grupo de pesquisa em Bio-Optoeletrônica Orgânica– UTFPR 

Figura 1: Fibra de nanotubos de carbono sendo esticada. O resultado é similar uma teia de aranha, pois é elástica, leve e forte com a vantagem de ser uma “teia” que conduz eletricidade.

Dia após dia novidades relacionadas à nanociência surgem em nossas vidas de modo a trazer facilidades às nossas atividades do cotidiano. O celular, por exemplo, virou um grande amigo de muitas pessoas pela sua capacidade de agregar funções/App (GPS, redes sociais, câmera, agenda etc.) que podem ser acessados de qualquer lugar no mundo quando conectado à internet. Isso só é possível devido aos avanços na área de nanotecnologia que ampliaram a capacidade de processamento desses dispositivos mantendo-os em uma escala muito pequena, afinal, tudo isso cabe em sua mão. Se pudermos dar um zoom em um desses dispositivos eletrônicos e irmos para a escala nanométrica (1 nanômetro=1×10-9 m =0,000000001 m) podemos analisar, por exemplo, que tipos de materiais são usados para gerar tal eficiência. Entre os materiais “queridinhos” aplicados na nanotecnologia, o nanotubo de carbono tem papel de destaque em várias situações. Seu nome é devido a sua forma longa e oca em formato de tubo, com paredes formadas por folhas de carbono, chamadas de grafeno, com espessura de apenas um átomo (veja aqui). Continuar lendo

Pondo os tumores para dormir: como a regulação do ciclo de sono celular pode ser utilizada em terapias anti tumorais

Por Bruno Costa da Silva – Champalimaud Centre for the Unknown/Lisboa – Portugal  

Apesar de ainda pouco investigado, já é sabido há algum tempo que, assim como nós (e quase todos os seres vivos), as células que nos compõem também apresentam períodos de maior e menor atividade metabólica durante as 24 horas de um dia. Esse processo é definido como ciclo circadiano. Sabe-se ainda que, diferentemente de células saudáveis, tumores muito frequentemente adotam um regime de “serão”, ficando constantemente com seu metabolismo ativado. Com isso, ao estarem ininterruptamente recolhendo e reciclando nutrientes e biomoléculas, tumores conseguiriam manter constante o ritmo de geração de novas células necessário para o crescimento de massas tumorais.

Tirando vantagem de descobertas anteriores, que decifraram a base molecular do ciclo circadiano, cientistas descobriram que ao “botar as células tumorais para dormir” é possível não apenas parar o crescimento de tumores, mas também induzir a morte dessas células. Nesse estudo, liderado pelo cientista Satchidananda Panda do Instituto Salk nos Estados Unidos e publicado na revista cientifica britânica Nature em janeiro de 2018, cientistas conseguiram com sucesso bloquear o crescimento de diversos tipos tumorais, incluindo leucemias, melanomas e tumores de mama, colón, reto e de cérebro. Para isso, eles utilizaram duas drogas experimentais originalmente desenvolvidas para o tratamento de doenças metabólicas, chamadas de SR9009 e SR9011. Essas drogas ativam duas proteínas importantes para a regulação do ciclo circadiano, denominadas VER-ERBα e VER-ERBβ. Continuar lendo

Organizando a vida

Por: Giordano W. Calloni – Dpto. de Biologia Celular, Embriologia e Genética – UFSC 

Um artigo, publicado na conceituada revista Nature no último mês de maio, reforça, de maneira contundente, mais um dos aspectos da incrível conservação de mecanismos biológicos ao longo da Evolução.

Figura 1: a) experimento original de Spemann e Mangold, 1924.
b) experimento de Martyn e colaboradores, 2018. Figura modificada
de Pourquié, 2018.

Cientistas descobriram que em humanos ocorre a presença de uma estrutura que havia sido identificada inicialmente em embriões de sapos, há quase 100 anos atrás. Essa estrutura chama-se Organizador (tradução literal de “Organizer”). A história da descoberta do Organizador em sapos é por si só fascinante. Em 1924, Hans Spemann e sua aluna de doutorado Hilde Mangold fizeram o transplante de uma pequena região contendo um grupo de células de um embrião de uma espécie de salamandra (pigmentada) para uma outra espécie (não pigmentada) (Figura. 1a). O resultado foi absolutamente extraordinário: o grupo de células que foi transplantado foi capaz de induzir a formação de um segundo embrião parcial no tecido hospedeiro. Dessa forma, esse grupo de células transplantado tinha o poder de induzir os tecidos do hospedeiro a mudar seus “destinos” e formarem outras estruturas, originando um ser vivo novo e completo. Na verdade, esse segundo embrião formado, apenas um pouco menor, parecia um gêmeo siamês e era constituído pelo tecido transplantado, mas majoritariamente pelo tecido do hospedeiro. Continuar lendo