É possível criar eletricidade a partir da neve

Por Renata  Kaminski, Dpto. de Química, UFS / Aracajú – SE

A obtenção de energia renovável, como solar ou do vento, em regiões climáticas de frio e neve extremos é sempre um grande desafio à ciência. Devido à grande cobertura de nuvens ou de neve e períodos muito curtos de luz solar, a produção de energia pode ser afetada. Pensando nisso, cientistas da UCLA e seus colaboradores desenvolveram um novo dispositivo que é capaz de criar eletricidade a partir da neve. É o primeiro dispositivo desse tipo, barato, flexível e adaptável. O dispositivo é um nanogerador triboelétrico, que pode ser usado como coletor de energia e também como sensor. É possível que ele funcione como uma estação de monitoramento do tempo em miniatura, dando informações em tempo real sobre a velocidade de queda de neve, acúmulo de neve e sua profundidade, direção do vento entre outras coisas. Também pode funcionar como uma fonte de energia adaptável, pela sua flexibilidade, ou um sensor biomecânico, que detecta o movimento dos atletas de esportes na neve. A ideia desses cientistas é que Continuar lendo

Simular para entender: uso de organoides no desenvolvimento de dentes

Por Michelle Tillmann Biz – Dpto. de Ciências Morfológicas / UFSC

O uso de organoides tem sido uma ferramenta muito útil para o entendimento do processo de desenvolvimento natural de doenças ou no estabelecimento de terapias regenerativas. Seu uso na ciência é tão importante que já mereceu destaque aqui no Cientistas Descobriram Que… (acesse clicando aqui). De forma sucinta, organoides são estruturas tridimensionais formadas a partir de células-tronco humanas (ou células progenitoras). Essas células são cultivadas em condições de indução para a diferenciação e arranjo celular, resultando em um órgão substituto de laboratório (in vitro) com uma semelhança com o próprio órgão do ser humano (in vivo).

A utilização mais comum dos organoides é a substituição de parte de órgãos lesionados, Continuar lendo

Os PROTACs e a corrida do ouro para o desenvolvimento de drogas revolucionárias

Por Bruno Costa da Silva – Champalimaud Centre for the Unknown/Lisboa – Portugal

­

Toda vez que ouvimos falar de uma medicação, nova ou velha, em geral nos referimos a uma pequena molécula ou a um anticorpo que possui a propriedade de se ligar à uma biomolécula alvo (normalmente proteínas) e com isso perturbar a sua atividade. Ao fazer isso pode-se, por exemplo, inibir uma proteína envolvida em um processo específico – como inflamação ou crescimento celular – e assim obter um efeito terapêutico. Seguindo esse princípio básico, temos drogas que podem inibir o crescimento de bactérias, amenizar a inflamação em uma lesão, diminuir um processo de dor ou desacelerar o crescimento de células tumorais, dentre diversos outros exemplos. Entretanto, um ponto importante a ser considerado nesta estratégia é que, para serem efetivas, estas drogas precisam se ligar a um local destas proteínas associado à sua atividade, conhecido como sítio ativo. O problema é que se estima que pelo menos 80% das proteínas produzidas por células humanas não possuem um sítio ativo definido. Ou seja, se alguma proteína associada à uma patologia pertencer a esses 80% nenhuma das estratégias convencionais poderão modular a sua atividade e a sua doença associada. Não surpreendentemente esses casos não são raros. Continuar lendo

Os fungos transformaram nosso Planeta

Por Marcela Monteiro & Elisandro Ricardo Drechsler dos Santos, Dpto. BOT-CCB, PPGFAP – UFSC

Plântula e sua rizosfera significativamente ampliada pelas hifas do fungo micorrízico. Fonte: Pinterest.

Os fungos, até a década de 60, eram equivocadamente classificados como plantas. Mais recentemente, o Reino Fungi vem recebendo a devida atenção, não só por ser um grupo único de organismos extremamente diversos, mas também por suas funções no meio ambiente.

Os fungos são responsáveis por serviços ecossistêmicos essenciais para manutenção do equilíbrio natural, tão importantes quanto a fotossíntese das plantas e algas. Dois destes importantes serviços merecem destaque. Um deles, e talvez o mais conhecido, é o fato de os fungos atuarem como decompositores naturais, sendo fundamentais na ciclagem de nutrientes, pois degradam potencialmente tudo ou quase tudo. O segundo que merece destaque, igualmente importante, mas menos conhecido é o fato de os fungos atuarem como micorrízicos, ou seja, são responsáveis por um sistema de conexão nas florestas, que envolve todas as relações de troca de nutrientes, químicos tóxicos e até mesmo de informações com e entre as plantas. Continuar lendo

Células-tronco cardíacas “vestidas a rigor” com a ajuda das plaquetas… O “último grito da moda” na terapia celular de reparação da lesão cardíaca

Por Hélia Neves – Faculdade de Medicina de Lisboa – Portugal

Células estaminais cardíacas (azul e magenta) revestidas na sua superfície com nanovesículas de plaquetas (amarelo torrado). Creditos: NC State University.

As doenças cardiovasculares representam a maior causa de morte em países ricos e emergentes, causando um grande peso na sociedade. Todos os anos morrem mais de quatro mil portugueses, e mais de trezentos mil brasileiros, vítimas de enfarte agudo do miocárdio (vulgarmente conhecido como ataque cardíaco).

O enfarte do miocárdio é causado por coágulos que obstruem as artérias coronárias. Essas artérias são responsáveis pelo fornecimento de oxigénio ao coração e quando obstruídas levam a uma redução da oxigenação (isquemia) do músculo cardíaco, causando lesão e morte celular na região afetada. Nas lesões cardíacas isquémicas, a formação do coágulo resulta de alterações das paredes dos vasos que expõem os componentes da matriz extracelular do tecido conjuntivo (como o colagénio, fibronectina e factor de von Willebrand) no lúmen (interior) do vaso. Em condições normais estes componentes da matriz mantêm-se separados do lúmen do vaso por uma barreira epitelial (endotélio), e quando entram em contacto com o sangue circulante, interagem com as plaquetas, dando início ao processo de coagulação sanguínea. Continuar lendo

Materiais ultrafortes e superleves: seria possível utilizar nanoestruturas para proteção balística?

Por Keli F. Seidel, Universidade Tecnológica Federal do Paraná – UTFPR

Não é nenhuma novidade científica falar que diferentes estruturas do carbono são capazes de formar materiais extremamente duros e/ou resistentes. Podemos começar com o velho exemplo da comparação entre o grafite (aquele do seu lápis mesmo) e o diamante. Ambos são formados por átomos de carbono que diferem na posição (tipo de ligação) em que esses átomos se agrupam resultando propriedades completamente diferentes ao material. Continuar lendo

Invisibilidade: a ciência por trás do ocultamento de objetos

Por Caroline Pereira Martendal – Depto. De Engenharia Mecânica, UFSC. Cofundadora do blog Engenheiro de Materiais

Figura 1: Carro invisível de James Bond em 007 – Um novo dia para morrer (2002)

Quem nunca imaginou poder ser invisível? A ideia de ocultar um objeto à visão é comum em filmes e desenhos animados. Um exemplo é o filme 007 – Um Novo Dia para Morrer, de 2002, no qual James Bond dirige seu carro Aston Martin Vanquish invisível (Figura 1). Para tornar isso possível, recorreu-se a uma forma especial de filmagem: o lado do carro que aparecia na cena funcionava como uma tela, a qual projetava o que era filmado por câmeras instaladas no lado oposto do veículo, de forma a parecer que ele não estava ali. Foi só na década seguinte, no entanto, que a invisibilidade começou gradualmente a deixar de ser mera ficção científica para se tornar realidade, como já foi mencionado aqui no CDQ. Conseguimos enxergar um objeto quando a luz que ele reflete chega à nossa visão. Dessa forma, para que seja possível alcançar a invisibilidade, a luz deve ser manipulada de forma a enganar os nossos olhos, o que é um tema de pesquisa da ciência contemporânea. Atualmente, recorre-se a espécies de capas para atingir esse objetivo, as quais são as principais aplicações dos materiais artificiais, conhecidos como metamateriais. Continuar lendo