O " Cientistas descobriram que…" descreverá alguns dos principais achados científicos atuais numa linguagem simples. Nossos textos são escritos e revisados por pesquisadores que atuam em diversas áreas do conhecimento.
Por Daniel Fernandes, Departamento de Farmacologia UFSC
Cabo de guerra é um jogo bastante popular no qual duas equipes competem entre si em um teste de força puxando uma corda. Recentemente foi tema de um episódio da série “Round 6” que mostrou que o cabo de guerra não é um jogo somente de força, mas pode envolver muita tática e estratégia! Curiosamente uma pesquisa mostrou que nossas células podem estar fazendo um verdadeiro cabo de guerra no nosso coração!
Por Prof. Dr. Giordano Wosgrau Calloni – Depto de Biologia Celular, Embriologia e Genética, UFSC.
Na terceira parte de um dos maiores filmes da história do cinema norte-americano, o Poderoso Chefão, assistimos ao famoso beijo da morte. Michael Corleone beija violentamente a boca de seu irmão Fredo após descobrir a traição que este cometeu. O beijo era o sinal de que Fredo estava marcado para morrer. Para a máfia, este beijo imposto, de certa forma “roubado”, tem como objetivo sinalizar que a morte do ser beijado foi decretada.
Um beijo similar parece acontecer em escala microscópica no nosso organismo. Cientistas descobriram que existem beijos roubados entre as células que podem levar à morte do organismo em sua batalha contra células tumorais.
Células NK roubam membrana tumoral
Para entendermos o que acontece, precisamos primeiramente falar de um grupo específico de células que circula em nossa corrente sanguínea e que possui um nome que mais parece ter saído de um filme de mafiosos: as Natural Killers, ou abreviadamente, NK, (literalmente assassinas por natureza, ou assassinas naturais). As células NK são um tipo de linfócitos do nosso sistema imune.
Muitos linfócitos são produtores de citocinas, ou seja, de proteínas que, como balas, saem da pistola de um gângster e são lançadas contra outros gangsters. Essas balas, ops, citocinas são lançadas e podem matar tanto células infectadas por vírus, quanto células tumorais. Linfócitos matadores de tumores foram relatados pela primeira vez em 1968, por Hellström e colaboradores. Alguns anos depois, em 1975, Kiessling e colegas, em paralelo com o grupo de pesquisa de Ronald Herberman, definiram uma nova população de linfócitos capazes de atingir células tumorais que foram chamados de Natural Killers (NKs). Portanto, as NKs seriam gângsters que valem a pena termos como aliadas.
Por Dr. Marco Augusto Stimamiglio do Instituto Carlos Chagas – Fiocruz
À medida que a população mundial de idosos aumenta, compreender as disparidades na saúde relacionadas à idade se torna uma tarefa essencial. O envelhecimento do nosso sistema imunológico tem papel crítico na manifestação de doenças e no declínio das condições de saúde relacionadas à idade, como a menor eficiência na recuperação de infecções e no combate a patógenos oportunistas. Mas será que pode haver alguma associação entre o envelhecimento do nosso sistema imune e o estresse social (como discriminação, trauma, estresse crônico) que somos submetidos ao longo de nossas vidas?
É evidente que cada indivíduo tem uma taxa de envelhecimento do seu sistema imune e que fatores como o tabagismo podem acelerar esta taxa, enquanto a prática regular de exercícios físicos pode retardá-la. Em um estudo publicado em junho de 2022 na prestigiada revista PNAS, foram utilizados dados de saúde de mais de 5 mil adultos norte-americanos acima dos 50 anos de idade para revelar a associação entre fatores socioeconômicos ou de estilo de vida e o envelhecimento imunológico acelerado.
Por Fabienne Ferreira, Dpto de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia da UFSC
Você provavelmente já ouviu falar que o aleitamento materno apresenta inúmeros benefícios à saúde do bebê, certo? Não pode ser à toa que diversos órgãos em saúde, como a Organização Mundial de Saúde (OMS), recomendam o aleitamento materno exclusivo até os seis meses de idade da criança. O leite materno já é conhecido a muito tempo por fornecer todos os nutrientes necessários nos primeiros meses de vida do bebê, além de conter anticorpos que ajudam a proteger a criança contra diversas doenças. Evidências científicas mais recentes apontam benefícios adicionais do leite materno, como o auxílio no desenvolvimento do sistema imunológico (sistema de defesa) do bebê, que parece impactar positivamente em etapas posteriores da sua vida. Talvez seja por isso que alguns estudos apontam que crianças alimentadas com leite materno tendem a apresentar menores taxas de alergias, diabetes e asma ao longo da vida.
Por Paulo César Simões-Lopes – Dpto de Ecologia e Zoologia – UFSC
“Há vários lobos dentro de mim, mas todos eles uivam para a mesma lua”, teria dito Virgílio. Os lobos traduzem nossos medos, que são muitos, no mais das vezes medos do mundo natural. Para muitos, natureza é só aquela que pode ser modificada, transformada, subjugada. E com os lobos não foi diferente. Nossa relação com eles não é nada nova, tampouco amistosa. Foram caçados, comidos, sequestrados e por fim modificados. Precisávamos de sentinelas gratuitas para nossos acampamentos quando ainda éramos caçadores-coletores nômades. Precisávamos de alguém com um bom focinho para seguir as trilhas olfativas de nossas presas. Precisávamos de carne quando tudo mais faltasse.
E foi assim que roubamos filhotes de lobos ou matamos suas mães zelosas para cria-los como parte de nossa família humana. Logo ficaríamos com os lobinhos mais mansos e abateríamos os mais ferozes. De geração em geração, dobramos seu temperamento, sua autonomia, sua iniciativa. Mas quando esse lento processo começou? Quando os lobos viraram cães? Onde foi que essa transformação ocorreu pela primeira vez? Teria ela ocorrido em diferentes locais ao mesmo tempo?
A sífilis epidêmica, doença causada pela espiroqueta Treponemapallidum subesp. pallidum, provavelmente é tão antiga quanto o advento das civilizações humanas modernas. Isto porque existem relatos de doenças com característica bastantes similares e de transmissão sexual que remetem à sífilis, embora sem comprovação, já no antigo Egito. Acredita-se que a primeira descrição confiável da sífilis ocorreu no século XV, devido a um evento epidêmico de grandes proporções na Europa a partir do retorno das tropas francesas regressando da Itália. Nessa época, a doença apresentava alta letalidade. Durante a Primeira Guerra Mundial, foi a segunda doença que mais afastou combatentes, perdendo apenas para a gripe espanhola. Já no início do século XVI, tinha-se a noção da transmissão da sífilis por meio de intercurso sexual, sendo que essa foi a provável explicação para a sua disseminação pelo mundo.
Após 50 a 100 anos do evento epidêmico de 1495, a doença se tornou menos agressiva e menos letal, se mostrando mais episódica como é atualmente. Ela passou a apresentar fases mais marcadas, sendo a primeira fase representada pelas úlceras genitais, que se cicatrizam espontaneamente sem tratamento. Na segunda fase, na qual há o desenvolvimento de erupções cutâneas, febre e dores intensas. Em seguida, a infecção torna-se latente e assintomática por muitos anos até que a fase terciária da doença se manifesta por abcessos, úlceras, deformações (lesões gomatosas) culminando em debilidade severa e morte.
por Michelle T. Biz – Depto. de Morfologia da UFSC
Vê-se na imagem em destaque um maior aumento com detalhes histológicos do osso, ligamento e cemento, bem como os resots epiteliais de Malassez presente no ligamento.
Entre o dente e o osso da maxila e mandíbula, há um ligamento que conecta estes dois tecidos mineralizados: o ligamento periodontal. Este ligamento é um tecido rico em células e feixes grossos de fibras colágenas que estão inseridas no osso e no cemento (superfície da raiz do dente). Assim, o ligamento promove uma firme inserção do dente aos maxilares.
Mas, além disso, o ligamento periodontal funciona como uma espécie de barreira biológica de separação entre osso e cemento, limitando a deposição óssea continuada e a eventual proximidade do osso com a raiz, o que levaria à anquilose dentária.