A alimentação que transforma a microbiota em saúde!

Por Geison Souza Izídio, Laboratório de Genética do Comportamento, Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC

Atualmente, estima-se que para cada célula do nosso corpo, existe mais de uma outra de hospedeiros que pegam uma “carona” conosco. Estes hospedeiros são bactérias, fungos e vírus, que compõem a nossa microbiota. Aliás, esta proporção numérica é tão impressionante, que, pelo ponto de vista lógico, como nossas próprias células estão em menor número, na verdade nós seríamos os “caroneiros” da nossa microbiota.

Sabe-se que a composição da microbiota varia entre indivíduos e possivelmente tem a contribuição de fatores genéticos e da idade. Mas, o ambiente representado pelo contato que temos com pessoas próximas, ou animais de estimação, também influenciam a composição da nossa microbiota. Por exemplo, pessoas que dividem a mesma casa têm a tendência a compartilhar a mesma microbiota entre elas, ou também com seus animais de estimação.

As bactérias da nossa microbiota têm papel fundamental na digestão de alimentos, síntese de vitaminas, regulação energética, proteção contra patógenos e na modulação do sistema imune. Mas, recentemente, diversos cientistas vêm demonstrando também a importância da microbiota na nossa saúde física ou mental. Transtornos neuropsiquiátricos, como os de depressão, ou neurodegenerativos como o Alzheimer, estão sendo explicados, em parte, devido à microbiota. Aparentemente, algumas bactérias da microbiota, ou produtos delas, modificam o funcionamento de sistemas neuronais, favorecendo o aparecimento da depressão, ou causam a morte de neurônios, favorecendo doenças neurodegenerativas. Provavelmente, esta relação se dá através da comunicação direta entre intestino e o nosso cérebro (eixo intestino-cérebro). Inclusive alguns pesquisadores já propõem também uma expansão do conceito para um eixo boca-intestino-cérebro ressaltando a enorme importância da nossa boca na composição da microbiota. O compartilhamento da microbiota entre pessoas que moram juntas inclusive parece explicar, ao menos em parte, a tendência de predisposição comum a transtornos neuropsiquiátricos.

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Por que algumas mulheres têm infecções urinárias recorrentes?

Por Fabienne Ferreira do Dpto de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia da UFSC.

Infecções urinárias (IU) são muito comuns em todo o mundo, afetando milhões de pessoas anualmente. Estas infecções são predominantemente causadas por bactérias que habitam o intestino, sendo a bactéria Escherichia coli (E. coli) a mais incidente. Por isso, as IU são mais frequentes em pessoas com vulva/vagina (designadas, neste artigo, por mulheres), uma vez que a entrada do trato urinário (uretra) está bem próxima anatomicamente da região de saída do intestino (ânus), facilitando a migração das bactérias de uma região para a outra. A IU pode ocorrer em qualquer parte do trato urinário, incluindo a uretra (causando uretrite), bexiga (cistite) e ureteres e rins (pielonefrite), conforme ilustrado na figura.

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Duas células, duas funções, e um cabo de guerra no nosso coração! 

Por Daniel Fernandes, Departamento de Farmacologia UFSC

Cabo de guerra é um jogo bastante popular no qual duas equipes competem entre si em um teste de força puxando uma corda. Recentemente foi tema de um episódio da série “Round 6” que mostrou que o cabo de guerra não é um jogo somente de força, mas pode envolver muita tática e estratégia! Curiosamente uma pesquisa mostrou que nossas células podem estar fazendo um verdadeiro cabo de guerra no nosso coração!

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O beijo da morte e a guerra entre linfócitos e tumores

Por Prof. Dr. Giordano Wosgrau Calloni – Depto de Biologia Celular, Embriologia e Genética, UFSC.

Na terceira parte de um dos maiores filmes da história do cinema norte-americano, o Poderoso Chefão, assistimos ao famoso beijo da morte. Michael Corleone beija violentamente a boca de seu irmão Fredo após descobrir a traição que este cometeu. O beijo era o sinal de que Fredo estava marcado para morrer. Para a máfia, este beijo imposto, de certa forma “roubado”, tem como objetivo sinalizar que a morte do ser beijado foi decretada.

Um beijo similar parece acontecer em escala microscópica no nosso organismo. Cientistas descobriram que existem beijos roubados entre as células que podem levar à morte do organismo em sua batalha contra células tumorais. 

Células NK roubam membrana tumoral

Para entendermos o que acontece, precisamos primeiramente falar de um grupo específico de células que circula em nossa corrente sanguínea e que possui um nome que mais parece ter saído de um filme de mafiosos: as Natural Killers, ou abreviadamente, NK, (literalmente assassinas por natureza, ou assassinas naturais). As células NK são um tipo de linfócitos do nosso sistema imune.

Muitos linfócitos são produtores de citocinas, ou seja, de proteínas que, como balas, saem da pistola de um gângster e são lançadas contra outros gangsters. Essas balas, ops, citocinas são lançadas e podem matar tanto células infectadas por vírus, quanto células tumorais. Linfócitos matadores de tumores foram relatados pela primeira vez em 1968, por Hellström e colaboradores. Alguns anos depois, em 1975, Kiessling e colegas, em paralelo com o grupo de pesquisa de Ronald Herberman, definiram uma nova população de linfócitos capazes de atingir células tumorais que foram chamados de Natural Killers (NKs). Portanto, as NKs seriam gângsters que valem a pena termos como aliadas.

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Pode haver relação entre o estresse social e o envelhecimento do nosso sistema imune? 

Por Dr. Marco Augusto Stimamiglio do Instituto Carlos Chagas – Fiocruz

À medida que a população mundial de idosos aumenta, compreender as disparidades na saúde relacionadas à idade se torna uma tarefa essencial. O envelhecimento do nosso sistema imunológico tem papel crítico na manifestação de doenças e no declínio das condições de saúde relacionadas à idade, como a menor eficiência na recuperação de infecções e no combate a patógenos oportunistas. Mas será que pode haver alguma associação entre o envelhecimento do nosso sistema imune e o estresse social (como discriminação, trauma, estresse crônico) que somos submetidos ao longo de nossas vidas? 

É evidente que cada indivíduo tem uma taxa de envelhecimento do seu sistema imune e que fatores como o tabagismo podem acelerar esta taxa, enquanto a prática regular de exercícios físicos pode retardá-la. Em um estudo publicado em junho de 2022 na prestigiada revista PNAS, foram utilizados dados de saúde de mais de 5 mil adultos norte-americanos acima dos 50 anos de idade para revelar a associação entre fatores socioeconômicos ou de estilo de vida e o envelhecimento imunológico acelerado.

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Um tesouro invisível no leite materno

Por Fabienne Ferreira, Dpto de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia da UFSC

Você provavelmente já ouviu falar que o aleitamento materno apresenta inúmeros benefícios à saúde do bebê, certo? Não pode ser à toa que diversos órgãos em saúde, como a Organização Mundial de Saúde (OMS), recomendam o aleitamento materno exclusivo até os seis meses de idade da criança. O leite materno já é conhecido a muito tempo por fornecer todos os nutrientes necessários nos primeiros meses de vida do bebê, além de conter anticorpos que ajudam a proteger a criança contra diversas doenças. Evidências científicas mais recentes apontam benefícios adicionais do leite materno, como o auxílio no desenvolvimento do sistema imunológico (sistema de defesa) do bebê, que parece impactar positivamente em etapas posteriores da sua vida. Talvez seja por isso que alguns estudos apontam que crianças alimentadas com leite materno tendem a apresentar menores taxas de alergias, diabetes e asma ao longo da vida. 

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Sobre lobos, cães e homens… uma origem da domesticação

Por Paulo César Simões-Lopes – Dpto de Ecologia e Zoologia – UFSC

Há vários lobos dentro de mim, mas todos eles uivam para a mesma lua”, teria dito Virgílio. Os lobos traduzem nossos medos, que são muitos, no mais das vezes medos do mundo natural. Para muitos, natureza é só aquela que pode ser modificada, transformada, subjugada. E com os lobos não foi diferente. Nossa relação com eles não é nada nova, tampouco amistosa. Foram caçados, comidos, sequestrados e por fim modificados. Precisávamos de sentinelas gratuitas para nossos acampamentos quando ainda éramos caçadores-coletores nômades. Precisávamos de alguém com um bom focinho para seguir as trilhas olfativas de nossas presas. Precisávamos de carne quando tudo mais faltasse.

E foi assim que roubamos filhotes de lobos ou matamos suas mães zelosas para cria-los como parte de nossa família humana. Logo ficaríamos com os lobinhos mais mansos e abateríamos os mais ferozes. De geração em geração, dobramos seu temperamento, sua autonomia, sua iniciativa. Mas quando esse lento processo começou? Quando os lobos viraram cães? Onde foi que essa transformação ocorreu pela primeira vez? Teria ela ocorrido em diferentes locais ao mesmo tempo?

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