Os cientistas precisam falar sobre sacerdócio

Por Paula Borges Monteiro – Grupo de Estudos em Tópicos de Física – IFSC

Science, capa do volume 375 de 04 março de 2022.

Você pode imaginar que este texto é sobre a missão exercida por religiosos ou um conteúdo abordando ciência e fé. Não! “Sacerdócio” é o termo utilizado em uma série de seis artigos da revista Science que falam sobre Físicos Negros. A seção especial ocupa a capa da edição de 4 de março de 2022.

Muitos assuntos explicados por Cientistas Descobriram Que… foram publicados nas revistas científicas mais conceituadas e influentes do mundo. Os cientistas submetem seus trabalhos que são analisados e revisados por outros pesquisadores e aceitos ou não para publicação. O aceite depende, além do mérito científico e da originalidade, das características da revista que, algumas vezes, além de importantes investigações científicas, focadas ou não em determinada área, publica notícias, oportunidades e implicações da ciência na política e na sociedade. É o caso da revista Science, uma das mais prestigiadas do mundo, publicada pela Associação Americana para o Avanço da Ciência.

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A produção de colesterol por tumores de mama como estratégia para a formação de metástases

Por Bruno Costa da Silva – Champalimaud Centre for the Unknown/Lisboa, Portugal

Dados recentes da organização mundial da saúde indicam que em torno de 18 milhões de pessoas morrem no mundo anualmente em decorrência de doenças cardiovasculares (especialmente por ataque cardíaco e derrames). Apesar deste dado impressionante, este número era mais do que o dobro nos anos 1980. Além de reduções marcadas no consumo de cigarros e desenvolvimento de tratamentos anti tromboses, um fator marcante para esta queda vertiginosa foi o maior controle dos níveis de colesterol pelo uso amplo de drogas do tipo Estatinas.

Outra causa importante de mortes é o câncer, que causa em torno de 10 milhões de mortes por ano mundialmente. Um dos principais motivos para esta cifra, que continua com tendência de alta, decorre da falta de estratégias diagnósticas precoces que previnam o desenvolvimento de metástases tumorais. Apesar do aprimoramento de tratamentos antitumorais, especialmente por avanços em técnicas cirúrgicas e de drogas alvo-dirigidos, ainda há falta de estratégias eficazes para a prevenção e tratamento de metástases. 

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Conversas cruzadas entre células que coabitam tumores: educação celular ou má influência?

Por Rita Zilhão – Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, Portugal

As células cancerígenas, conforme o tipo e acumulação de mutações, podem ser mais ou menos agressivas no sentido de serem mais ou menos invasivas e formarem metástases. Os tumores, por outro lado, além de células cancerígenas, contêm outros tipos de células, como por exemplo células de defesa imunitária e fibroblastos, entre outras. Os fibroblastos associados a tumores designam-se de CAFs (cancer-associated fibroblasts). Os CAFs, por sua vez, podem ser de vários subtipos e coexistir no mesmo tumor, tendo uma ação que promove ou limita a progressão da doença.

Os cientistas têm procurado perceber de que forma as diferentes células no nicho tumoral interagem e se os diferentes subtipos de cada uma se influenciam de forma a modular a invasão, formação de metástases e resistência à quimioterapia. Para tal, o grupo de Vennin et al. gerou dois tipos de ratinhos em que cada um era portador de um tipo diferente de mutação no gene p53 em células do pâncreas. Atenção que o gene p53 é um grande protetor do desenvolvimento tumoral, sendo conhecido como um gene supressor de tumores, na medida em que em condições normais tem uma ação anti-tumoral. Uma das mutações gerada em um dos ratinhos (vamos designá-la de mutação A) era responsável por gerar células tumorais com características mais agressivas e com maior capacidade de formar metástases do que a mutação no segundo ratinho (que designaremos de mutação B). Em seguida, isolaram-se de ambos os ratinhos células cancerígenas e CAFs obtendo-se assim quatro tipos celulares:

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Âmbar Gris, Almíscar, perfumes e outros mistérios…

Por Paulo César Simões-Lopes – Dpto de Ecologia e Zoologia – UFSC

Como sempre uma história puxa a outra e quando se vê há uma distância enorme entre a realidade e o imaginário popular. Recentemente, a notícia de um pescador na Indonésia que teria achado um bom naco de ambar gris (ou ambergris) causou uma verdadeira avalanche nas mídias sociais e na imprensa formal. Nessa notícia, se falava de um valor astronômico da substância na indústria de perfumes e assim por diante. E se dizia tratar-se de um “vômito de baleia”…

O âmbar gris não é um vômito e sim um produto do intestino dos cachalotes, uma das várias espécies de baleia. Pode ou não conter os restos de bicos das lulas gigantes e polvos de que eles se alimentam. Faz algum tempo, Cientistas Descobriram Que o âmbar gris só ocorre entre 1e 5% dos cachalotes! Ele é produzido pelo suco biliar que se encarrega de criar essa massa informe que acaba retida no intestino. Em boa parte, são álcoois terpenoides, ambreína (seu componente orgânico mais importante) e proporções significativas de esteroides fecais1. Assim, é improvável que a avalanche midiática de “vômitos” corresponda à realidade…, mas o que isso tem a ver com o almíscar? Ou com os perfumes?

Almíscar é uma palavra antiga. Diz-se que vem do sânscrito muská e que representaria o odor de secreções produzido com a finalidade de comunicação em vários mamíferos. Os cervos-almiscarados “pintam” o tronco das árvores com as secreções dessa glândula e com isso marcam sua passagem. Funcionaria, mais ou menos, como um perfil nas redes sociais. Os bois-almiscarados fazem o mesmo, assim como muitos outros mamíferos sociais.

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Cogumelos “mágicos” podem salvar vidas

Por Kelmer Martins da Cunha & Elisandro Ricardo Drechsler dos Santos,  Depto. BOT-CCB/UFSC

Fonte: link

Você leitor do CDQ já deve estar pensando: “já li esse título por aqui no CDQ, será?”. Sim, de forma muito similar, em um outro texto de 2017, falamos sobre como substâncias tóxicas de fungos venenosos poderiam ser úteis para transportar medicamentos no corpo humano e ajudar no combate a doenças, como o câncer. No texto de hoje, queremos compartilhar com vocês mais uma evidência científica do benefício dos fungos. Em um estudo recente, ficou comprovado o potencial que cogumelos “mágicos” têm para dar maior qualidade de vida às pessoas que sofrem com a depressão, inclusive salvando vidas.

A depressão é uma doença muito séria, por vezes negligenciada ou até mesmo não diagnosticada, mas que afeta a vida de milhões de pessoas diariamente. No mundo, são mais de 300 milhões de pessoas impactadas e, no Brasil, cerca de 16 milhões têm suas carreiras, interações sociais e a própria felicidade comprometidas pela doença. Existe uma relação clara entre depressão e alteração na estrutura cerebral, ou seja, pessoas com esta doença apresentam uma comunicação reduzida entre os neurônios, a chamada atrofia sináptica. Por ser uma doença com causas complexas, resultante da junção de fatores genéticos, ambientais e psicológicos, ainda não existe cura. Existem tratamentos que podem amenizar os efeitos da doença.

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A caminho de uma restauração dentária biológica: nova formulação e aplicação apontam para um futuro clínico

por Michelle Tillmann Biz – Dpto. de Ciências Morfológicas / UFSC

A dentina constitui a maior parte do tecido mineralizado do dente. Quando acometida por cárie, as células tronco contidas no interior da polpa dentária são capazes de diferenciarem-se em odontoblastos e secretar nova dentina a partir do local da lesão; entretanto, sem serem capazes de repor a porção dentinária perdida. Isso acarreta o enfraquecimento da estrutura dentária, uma vez que esta região de dentina perdida será reposta por material restaurador que, muito embora tenha uma estética excelente, não possui a mesma resistência do tecido dentinário perdido. 

A indução de células tronco no processo de reparo da dentina ocorre via sinalização Wnt/β-catenina, e a quantidade/qualidade de dentina reparadora produzida está diretamente relacionada ao nível de atividade de sinalização. Porém, esta via pode ser bloqueada pela enzima glicogênio sintase quinase 3 (GSK-3). Assim, em um estudo de 2017, objetivando a regeneração da dentina perdida aprimorando esta via de sinalização Wnt/β-catenina, um grupo de pesquisadores utilizou um inibidor da GSK-3 (leia a resenha deste estudo no CDQ).

Neste estudo de 2017, como inibidor de GSK-3 os pesquisadores utilizaram a Tideglusib (medicamento para tratamento de Alzheimer) em esponjas biodegradáveis. Muito embora o resultado tenha sido efetivo e promissor, a forma de aplicação (em esponjas no interior da cavidade pulpar) não pareceu ser a mais adequada para uma futura aplicação clínica.

Assim, os pesquisadores partiram para o estudo de uma formulação de inibidor de GSK-3 que pudesse ser incorporado em um hidrogel, e desta forma, ser aplicado no interior da cavidade do dente com a ajuda de uma seringa (sendo esta uma das formas mais comuns de aplicação de medicamentos e substâncias no interior do dente). Quatro anos após a primeira publicação, os pesquisadores apresentaram os resultados da nova formulação. A nova medicação é chamada de NP928 e pertence à mesma categoria da droga utilizada no estudo anterior (as Thiadiazolidinones – TDZD), porém com uma solubilidade maior que a Tideglusib. Assim, foi possível incorporar a droga a um hidrogel a base de ácido hialurônico, o que tornou possível a aplicação usando uma seringa. Após aplicado na cavidade a ser restaurada, o hidrogel passa para o estado sólido com a aplicação da luz azul (fotopolimerizador comumente usado com materiais restauradores), o que acrescenta uma vantagem à sua aplicabilidade clínica. Neste novo estudo, os autores compararam a utilização deste medicamento (NP928) em esponjas biodegradáveis (como no estudo anterior) e com hidrogel (a nova via de aplicação sugerida). Embora a aplicação usando esponjas também tenha provocado a formação de dentina, os autores verificaram que o hidrogel permitiu uma formação 30% maior de dentina.

A superioridade do hidrogel na formação de dentina é explicada pela rápida difusão e liberação do fármaco, sem, contudo, alterar a bioatividade e segurança do medicamento, permitindo a condução de células tronco para o local da aplicaçãoa e formação de nova dentina no local. Além disso, a aplicação do fármaco em hidrogel no interior de seringas aproxima-se mais ao uso rotineiro em consultório, o que pode tornar esta via muito atrativa em termos de aplicações futuras. 

Atualmente, os tratamentos restauradores disponíveis não são capazes de alcançar a regeneração de dentina apresentada pelos pesquisadores, motivo pelo qual estes resultados mostram-se de fato promissores para a Odontologia. Assim, é de se esperar, em breve, novos estudos que venham a comprovar a eficácia e a segurança de uma aplicação clínica deste tratamento;

Para saber mais, acesse o artigo original abaixo: