Os ensinamentos da pandemia

Por Filipe Modolo – Dpto. de Patologia, UFSC

Fonte: pxhere

Não é novidade para ninguém que estamos vivendo um momento trágico na história da humanidade, talvez um dos momentos mais difíceis da Idade Contemporânea. Não há dúvidas de que a pandemia do COVID-19 trouxe muitos prejuízos, como a perda da vida das pessoas amadas, diversas sequelas naqueles que se recuperaram, saturação dos sistemas de saúde público e privado, retração econômica com aumento no desemprego entre outros problemas muito sérios. Diversos textos desse blog científico já trataram dessas repercussões negativas da pandemia, com destaque para “O impacto da COVID-19 na saúde bucal eO impacto emocional do COVID-19.

No entanto, de acordo com a “metáfora do copo meio cheio, meio vazio” ou a “filosofia de buscar o lado bom das coisas ruins” todas as situações, por pior que pareçam, podem ter um lado bom – muitos chamariam isso de comportamento Poliana (menina que sempre procurava extrair algo de bom em todas as situações, mesmo as mais desagradáveis, personagem do livro clássico “Pollyana”, escrito em 1913 por Eleanor H. Porter). A pandemia do COVID-19, por incrível que pareça, também gerou repercussões positivas…

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A possibilidade de transfusão de sangue a partir de células criadas em laboratório

Por Marco Augusto Stimamiglio – Instituto Carlos Chagas – Fiocruz/PR

Há vários anos os cientistas têm se preocupado com possíveis interrupções no suprimento de sangue para transplante. Estas interrupções poderiam ser decorrentes do envelhecimento rápido da população ou devido ao surgimento de novas doenças que seriam transmitidas através do sangue (como poderia ser o caso do vírus SARS-CoV-2, causador da atual pandemia de COVID-19), o que reduziria drasticamente o número de doadores no futuro.  Por este motivo, os cientistas têm trabalhado no desenvolvimento de alternativas para produzir sangue em larga escala nos laboratórios e nas fábricas, permitindo assim seu fornecimento ilimitado.

A produção de glóbulos vermelhos (hemácias ou eritrócitos) em laboratório de pesquisa já é uma realidade há anos. A primeira demonstração de que é possível usar estas células em transfusões de sangue data de 2011 (ensaio clínico publicado na revista Blood por M.C. Guiarratana e colaboradores). No entanto, apesar dessa conquista, a expansão em larga escala de glóbulos vermelhos para fins de transfusão sanguínea segue sendo um obstáculo, pois, para alcançar as quantidades de glóbulos vermelhos necessárias nas transfusões, os cientistas precisam atingir densidades equivalentes a 1,5 bilhão de células no volume de uma colher de sopa cheia (uma bolsa de sangue contém 2×1012 glóbulos vermelhos, ou seja, dois trilhões de células).

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A Ciência da Arte para diminuir o estresse

Por Giordano W. Calloni, Dpto de Biologia Celular, Embriologia e Genética da UFSC

Jackson Pollock pintando em Long Island, Nova York, 1950.
© Hans Namuth. Fonte: Encyclopedia Britannica

–  E então Giordano vamos?

–  aham…

–  Giordano, o museu vai fechar e você está em frente a esse quadro faz mais de uma hora. 

– ok, se não há saída, vamos…

Bem meu caro leitor, essa é uma conversa banal de um casal banal em uma tarde nada banal do mês de junho do ano de 2007. Os elementos presentes: um homem emocionado, sua esposa impaciente (com razão), e um quadro dentro de um dos mais belos museus do mundo: a Tate Modern Gallery em Londres. Talvez você tenha percebido que o homem diante do quadro é o interlocutor que aqui vos escreve. O quadro, “ah, o quadro!”, era nada mais nada menos do que “Summertime Number 9A” de Jackson Pollock. Solicito que o leitor clique aqui para ver o quadro antes de continuar a leitura.

Podemos nos questionar como uma pintura, que para alguns pode parecer “feia”, “desorganizada” ou, no melhor dos casos, completamente sem sentido, atrai atenções e invoca emoções das mais diversas. A rigor, não precisaríamos tentar entender e muito menos explicar essas emoções, pois, como bem disse Freud “não é fácil lidar cientificamente com sentimentos”. Mas como todo bom cientista não resisti à tentação e resolvi encarar o desafio de lidar cientificamente com as emoções suscitadas pela arte de Jackson Pollock.

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Cabelo, cabeleira: uso combinado de IGF-1 e EGF como potencial tratamento da perda intensa de cabelo

Por Michelle Tillmann Biz – Dpto. de Ciências Morfológicas / UFSC

Figura 1: imagem esquemática demonstrando o ciclo de um folículo piloso (FP).

Você já deve ter notado que nossos pelos/cabelos estão continuamente crescendo, caindo e sendo renovados. Pois bem, o responsável por este processo é o folículo piloso (FP), um conjunto de células localizadas na base da pele/couro cabeludo com o papel de originar, estimular o crescimento, manter e renovar os pelos/cabelos. Assim, nossos pelos/cabelos caem de tempos em tempos, e, na maioria das vezes, logo outros crescem no lugar (pelo menos para a maioria das pessoas…). Este ciclo de crescimento e perda reflete exatamente o processo contínuo e cíclico do FP, que é dividido em três fases: anágena (de desenvolvimento do FP), catágena (de degradação do FP) e telógena (de repouso do FP) (vide figura 1).

A fase de desenvolvimento é a mais longa (podendo durar entre 2 a 8 anos) e é caraterizada pelo período de produção/crescimento do fio de cabelo; em seguida virá a fase de degradação do FP (que dura de 2 a 4 semanas); e por fim a fase de repouso do FP (com duração de 2 a 4 meses) onde não há mais crescimento do fio de cabelo. Dentro deste ciclo, perder cabelo é normal e estará relacionado ao recomeço do ciclo do FP onde, reiniciando a fase de desenvolvimento, um novo fio de cabelo começa a crescer e empurrar o fio que estava em fase de repouso… e assim sucessivamente.

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Uma doce batalha: como o consumo de açúcares define a resposta de tumores a imunoterapias

Por Bruno Costa da Silva – Champalimaud Centre for the Unknown/Lisboa – Portugal

Como fruto dos trabalhos de James Allison e Tasuku Honjo, premiados com o prêmio Nobel de Medicina em 2018, um número crescente de pacientes com câncer tem tido acesso a uma nova modalidade de tratamento antitumoral, chamada de imunoterapia. O princípio destas terapias é bloquear o que inibiria a ação antitumoral do sistema imunológico. Apesar de produzir resultados bombásticos em muitos doentes, estas terapias são ineficazes para um número considerável de doentes. Por este motivo, um dos tópicos mais investigados na área de imuno-oncologia é a base biológica para o funcionamento ou não de imunoterapias. A ideia é compreender porque alguns pacientes não respondem a imunoterapias para então ter a oportunidade de desenvolver estratégias para contornar esta resistência.

Fonte: BioRender.com

            Em um trabalho publicado na revista britânica Nature em 15 de fevereiro de 2021, liderado pelos Doutores Taha Merghoub, Jedd Wolchok e Roberta Zappasodi (todos do instituto estado-unidense Memorial Sloan Kettering), investigou-se como o açúcar, um recurso disputado tanto por tumores quanto por células do sistema imunológico, pode desempenhar um papel na resposta a imunoterapias. Os Cientistas descobriram que quanto maior o consumo de açúcar por células tumorais menor é a eficácia de imunoterapias. Como evidência disso, o trabalho descreve que o bloqueio do consumo de açúcar por células tumorais aumenta a quantidade de açúcar à disposição de células imunes e, consequentemente, também aumenta a resposta a imunoterapias. Em experimentos feitos com tumores de mama em camundongos, observou-se que o bloqueio do consumo de açúcar por tumores aumentou o efeito de imunoterapias, diminuiu a quantidade de metástases e, consequentemente, aumentou a sobrevida dos animais. Os investigadores estudaram ainda a captura de açúcar em pacientes oncológicos. Neste estudo, observou-se que quanto maior o consumo de açúcar por células tumorais, menor a quantidade de células imunes presentes nos tumores.

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Organoides de cérebros humanos modernos com genes neandertais

Por Ricardo Castilho Garcez – Dpto. de Biologia Celular, Embriologia e Genética, UFSC

            Cientistas da Universidade da Califórnia (EUA) compararam o genoma de homens de Neandertal, que viveram na eurásia há 40.000 anos atrás, com o genoma de humanos modernos. Dentre as várias diferenças encontradas, chamou atenção uma variante do gene que codifica a proteína NOVA1. Para entender se essa proteína variante poderia contribuir para as diferenças existentes entre nosso cérebro e o de homens de Neandertal, esses cientistas produziram organoides cerebrais humanos (aglomerados celulares que recriam parte da estrutura e função do cérebro, também conhecidos como minicérebros), substituindo o gene da proteína NOVA1 moderna, pela variante de neandertal. Ou seja, produziram organoides cerebrais humanos que expressavam a versão neandertal da proteína NOVA1.

            Você ficou curioso para saber se a alteração de uma única proteína poderia mudar o desenvolvimento do nosso cérebro, aproximando-o do cérebro dos Neandertais?

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O Tucuxi na Lista Vermelha (Ou na lista cinzenta). A crônica da Morte Anunciada?…

Por Paulo César Simões-Lopes – Dpto de Ecologia e Zoologia – UFSC

Somos bons nisso… Somos eficientes. Nossa fama não é a de um “exterminador do futuro”, de fato, somos exterminadores do presente no que tange à perda de espécies e hábitats. Estima-se que perderemos 5% das espécies do planeta nas próximas décadas, devido ao aquecimento global, diz uma breve nota publicada na Revista Nature [1]. Em terra e no mar, já alteramos, significativamente, mais de 65% de todas as áreas. E o que fazem alguns dos países mais populosos e poluidores do mundo? Retiram-se do acordo de Paris… ou simplesmente não fazem nenhum esforço para cumpri-lo.

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